O génio do mal

1. Vamos ter saudades dele. À medida que Donald Trump enlouquece ao infinito, escrevia ontem Xavier Vidal-Folch na página dois do El País, sinto crescer exponencialmente a nostalgia por Barack Obama.

Nostalgia pela beleza moral dos seus discursos. Nostalgia sobretudo pela sua política externa digna - que pôs um ponto final às décadas de um militarismo arrogante e imperial; que lançou prometedoras sementes de futuro no Irão, em Cuba, nas alterações climáticas.

São assim os textos do Xavier, sempre sublimes e profundamente humanos. E Obama merece a prosa que Vidal-Folch lhe dedica. Infinito é também o prazer de o ler. Como infinito deveria ser o mundo dos homens moralmente belos, que tudo fazem para a guerra evitar.

Ninguém no seu perfeito juízo tem dúvidas, sequer hesita na escolha. Evitar a guerra, como sempre quis Obama evitar. E não inventar a guerra, como Bush II conseguiu inventar. Ainda não conheci um homem decente que conseguisse explicar a guerra aos filhos.

Os americanos elegeram vários, nas últimas três décadas, republicanos ou democratas, presidentes que as justificavam com a democracia: quando em falta, havia que exportá-la. Nem que fosse à bomba. Todos eles sem exceção.

Obama foi o primeiro a renegar o papel de polícia do mundo. Tirou--lhe a farda, trocou-a, de facto, pelo compromisso com o progresso e a tolerância. Os dois em conjunto, nunca o primeiro desligado da segunda.

2. Ao longo da sua história, os Estados Unidos da América já experimentaram várias fórmulas de dominação: a militar, a comercial, a financeira, a cultural. E até o isolacionismo, que Trump agora tanto advoga, foi lá atrás o caminho que Jefferson encontrou para afirmar a supremacia americana.

A liderança de Obama foi diferente. Numa recente entrevista à Vanity Fair, o ainda presidente deixava claro que os problemas do mundo não se resolvem apenas com o poder dos EUA, como se viu na invasão do Iraque.

Este multilateralismo rima com pragmatismo. Mas também com cinismo. Ao fim de dois mandatos de "Estados Unidos à civil", as bombas não deixaram de rebentar. E não eram fogo-de-artifício para celebrar.

São bombas a sério, que matam "à antiga", implacáveis, dizimam cidades, assassinam centenas, milhares de civis, todos os dias. Escolas, hospitais. Nada sobra, ninguém é poupado. Em Aleppo não há pacifismo justificável. Só alheamento. E incompreensão.

3. Pois esta é a dúvida filosófica que fica depois de Obama. O mundo, que sempre desejou o fim da hegemonia militar da América, saberá viver sem ela?

Se a dúvida é terrível, o paradoxo é tremendo. Por um lado, a "política de desanuviamento", esta visão pacifista, o respeito que Obama revela pela Ordem Internacional. Por outro lado, as relações entre os EUA e a Rússia, desde o fim da Guerra Fria, vivem possivelmente agora o seu pior momento.

Dois lados da mesma moeda. Obama é líder ou Obama é mole? Putin nem é bluff nem é louco. Putin apoia Trump, mas não podia ser ele. Na terra de ninguém em que a América se tornou, é Putin quem está a ocupar o vazio da transição do poder.

Não foi Obama quem criou Putin, mas Putin está-se a aproveitar dele. Hoje massacra o que resta de Aleppo, como impiedosamente já fizera com Grozni - cidade-mártir, que foi destruída, que foi arrasada, para Putin dobrar a Chechénia.

Hoje, os crimes de guerra são na Síria. Ontem foram na Ucrânia. Deu-se a ocupação da Crimeia. As sanções da União Europeia. O "desvio" da Turquia. Até a denúncia de interferência russa nas eleições americanas (para supostamente beneficiar Trump).

A história entre o Ocidente e a Rússia está cheia de ódios e perdões, choques e cheques, valores e dinheiro, causas sem consequências. Agora há um clima em que as palavras já não são as únicas coisas a ser usadas.

Há os mísseis, que Moscovo acaba de apontar a cidades como Berlim, deixando-as sob a ameaça nuclear. A Europa perplexa, a conversa convexa, que treta de mundo é este, Xavier!?

Onde fica a beleza moral dos discursos? E o que sobra dos líderes inspiradores? Se a política de Obama é digna, Aleppo pode ser a nova Guernica? Podemos ousar ali, entre escombros, em plena chacina, sequer soletrar a palavra dignidade? Ela é possível onde impera a crueldade?

Na hora da despedida, não interessa discutir se Obama é genial ou um homem normal. Mas quando esfregou a lamparina libertou o génio do mal. Putin, esse, está para ficar! Com humildade e gratidão, Guterres é bem capaz de o dobrar.

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