O capitalismo zombie

1. Há um vídeo a circular nas redes sociais, que não sendo novo eu próprio partilhei nesta semana porque Nilton, meu amigo de verdade, o republicou na sua página. Um jovem altamente qualificado começa a descrever todas as suas habilitações, a experiência laboral acumulada, o domínio de línguas estrangeiras. E, quanto mais desfia o investimento feito na sua formação, maior é o tédio, para não dizer a reprovação cínica, que provoca naqueles que ali estão supostamente para o contratar.

O ambiente reproduz um concurso televisivo, é uma espécie de Shark Tank do talento em que o júri, formado por quatro empresáriose gestores, em vez de procurar empreendedores, recruta trabalhadores. A mecânica é a mesma de sempre: o primeiro a carregar na buzina ganha o concorrente (https://www.youtbe.com//watch?v=b2NKttKxyH0). Seria cómico se não fosse trágico.

A qualidade? Irrelevante. É terrível o que deveria ser desprezível. A flexibilidade? É o garante. Sem horários e sem direitos, sem regras, sem fins de semana, sem descontos para a Segurança Social. Ali à mercê, o indivíduo. É afinal o suicídio coletivo. Sem senso. Não é o começo, duvido de um recomeço, raramente há princípios quando ninguém vislumbra o fim. Para onde nos conduz este desespero?

O desespero dos bancos e das empresas - que está a ser pago pelos cidadãos. O desespero do cidadão - que serve de diversão sádica a idiotas sem escrúpulos. É reality show. Na vida real, a ganância, a maldade e os criminosos de colarinho branco buzinam mais alto: das falências fraudulentas da Enron ou do Lehman Brothers; da manipulação que vários bancos respeitáveis comprovadamente praticavam com a taxa de juro mais importante dos mercados, a Libor.

A cavalgada do neoliberalismo impulsionou o período mais longo de prosperidade que a humanidade conheceu. Em seu pleno funcionamento, uma imensa minoria ficou mais poderosa e mais rica - enquanto para milhões e milhões, porque acediam ao sistema financeiro como nunca, criou-se a ilusão de que todos estavam a participar nessa marcha imparável do capitalismo.

Não estavam. As desigualdades sociais, na verdade, acentuaram-se e a relação entre mais ricos e miseráveis retrocedeu um século. Um antigo "ministro das Finanças" de Bill Clinton sustenta que a estagnação secular do capitalismo tem sido disfarçada por um sistema assente em dívida (que colapsou), por formas "legais" de se evitarem impostos (os offshores que as opiniões públicas cada vez menos toleram) e pela "normalidade" instalada de se pagar salários cada vez mais baixos em relações laborais cada vez mais precárias.

2. Paul Mason, um experiente jornalista do inglês The Guardian, vê nestes sintomas de decadência, na forma como a elite tenta evitar o inevitável, a agonia da antiga Alemanha de Leste - onde o fim já se fazia anunciar, muito antes da queda do Muro de Berlim.

Não é o triunfo do socialismo. É o pós-capitalismo, que é coisa diferente das várias metamorfoses que o sistema até agora revelou numa notável capacidade de adaptação e de resiliência. Num livro com o pretensioso propósito de se constituir num "guia para o nosso futuro", Mason lê as projeções da OCDE para os próximos anos e diz, com todas as letras, aquilo que os economistas daquela organização apenas subentendem: "Para o mundo em desenvolvimento, o melhor do capitalismo já acabou; para o restante, acabará enquanto ainda formos vivos."

Não é o fim da história. É apenas o início de uma nova era que, tal como Mason, muitos de nós acreditam que já começou. As formas básicas de organização de uma economia pós-capitalista não passam pelo iluminismo do Estado, como a nossa geringonça ainda nos quer fazer acreditar. Estão a nascer dentro do próprio sistema, provocando a sua autoextinção, como "sucedeu com o feudalismo há quinhentos anos".

Assistimos a isso quase todos os dias e em todos os setores de atividade. Provavelmente sem percebermos o que realmente significa este mundo em que a empresa mais valiosa de imobiliário não é proprietária de um único imóvel (Airbnb), que nos transportes públicos o projeto global mais bem--sucedido não tem frota nem um único motorista contratado (Uber) e que as empresas de media que mais crescem não têm jornalistas, nem gastam milhões em estúdios de produção (Facebook, YouTube, etc).

Não é a Nova Economia, porque essa morreu de velha com a exuberância irracional. Mas é uma nova realidade em que, no triângulo negócio-empresa-tecnologia, o vértice que permanece imóvel é o do meio: as empresas não estão a acompanhar a velocidade com que a mudança tecnológica está a recriar os novos modelos de negócios.

De certa forma, é essa a encruzilhada da banca - que assenta num modelo de balcões e agências, quando fundamentalmente o multibanco tornou inúteis esta dispendiosa infraestrutura que o negócio deixou de conseguir suportar. E, quando se lamenta o fecho de 25 agências anunciado pelo BPI, a pergunta que deve ser feita é "quantos clientes continuarão a frequentar as centenas de balcões que permanecem abertos?".

O mundo ainda é controlado pelos que defendem a alta finança e os baixos salários. Têm o poder e esmagam qualquer esboço de alternativa à nascença - e foi exatamente isso que o BCE fez à esquerda tola da Grécia. São poderosos mas não são populares. E é neste "fosso entre poder e popularidade que reside o perigo", lembra Paul Mason. Assim nasceram os ditadores. Assim se abriram guerras. Nem mais, nem menos, a forma mais eficaz que o sistema até hoje concebeu para se autossustentar.