Estado-porreiro

1. Estado-porreiro, onde é tolerado o caloteiro. Não há semântica que disfarce o perdão fiscal. Não há desculpas capazes de simular a única motivação para a quinta vez (a quinta!!!) que em dez anos o governo diz que, agora sim, desta vez é a última.

Vamos perder a vergonha de ir buscar dinheiro a quem nos deve e não pagou. Aqui não há acumulação. Só dívidas. Ao Estado, de impostos devidos. Não há ideologia, nem Mortágua. Nem moral ou vergonha.

Também não há solidariedade neste perdão. Nunca houve em nenhum dos outros. Venham mascarados de uma falsa sensibilidade social ou de um plano para recuperação de empresas, como então fez o ministro Mateus.

Não pode ser social uma medida que, naturalmente, tem de se aplicar a todos: ricos e pobres, pequenos e grandes, contribuintes falidos ou simples cidadãos relapsos.

Pelo contrário, há dolo grave. Para o tolo que paga. E para o que não conseguiu pagar. Pois é este Estado-porreiro o mesmo que vem confiscando salários e penhorando contas bancárias. É aquele que se fez cobrar, com multas exorbitantes, junto de quem não cumpre prazos.

Não é um Estado esquizofrénico. É um Estado teso, que evoca grandes princípios e nobres causas, mas só pensa em dinheiro. Prepara para o Orçamento do próximo ano uma chuva de novos impostos. E abdica de uma parte dos velhos, divide-os em prestações suaves, para encaixar mais uns milhões enquanto este não acaba.

2. Estado-porreiro, onde é tolerado o arruaceiro. Governantes ameaçados, avenidas cortadas, trânsito bloqueado. E agressões. E palavrões. E empurrões. Nada acontece. Chamem a polícia! Três detenções. Todos para tribunal. Mas foram chamados ao ministro.

Não é o primeiro. Mais ministros assim trataram aqueles que os destrataram. Houve um a desfilar em manifestações contra si próprio. E já vimos coisas mais violentas. Nos estivadores. Nos camionistas, que são a versão upgrade dos taxistas.

Ontem evitaram-se confrontos físicos sérios. Mas ganhou a lei da força. Ganha sempre. Sempre que o Estado recebe quem o ameaça, sempre que se curva diante daqueles que o submetem à chantagem.

A defesa do bem público não é, nunca foi, um dos nossos pontos mais fortes. É normalmente distorcida a coisa em questão. Aqui, o que ganham os consumidores - em vez do que perdem os taxistas. Mas também na saúde, onde se fala de médicos e enfermeiros - não dos doentes. Na educação, onde é o professor, e não o aluno, a ocupar o centro do sistema.

Não é a apologia do Estado autoritário. É ter a noção de que um Estado treme quando perde a sua autoridade. O ministro deste governo aparentemente não cedeu. A ministra deste governo aparentemente deu ordens para ninguém bater.

Mas as estradas continuam bloqueadas, o acesso ao aeroporto de Lisboa vedado por carros em fila desde a manhã de ontem. Não podem lá continuar na manhã de hoje. Se isto assim continuar, já não é da Uber que se trata.

Nem é a contradição fundamental dos nossos tempos que agora importa: discutir se a velha economia quer expulsar a nova. Quanto mais este conflito sobe de escala e de tom, vai o problema muito além do transporte público, passa a ser prioridade o regresso da cidade à vida normal.

Trata-se simplesmente daquela linha que, uma vez ultrapassada, já são os ministros que não conseguem recuperar mais o pé. Vimos acontecer a vários, de vários governos. Desde o buzinão da ponte de Cavaco, passando pela cedência fácil, qualquer que fosse o protesto nos tempos de Guterres, é sempre a nós que, afinal, nos está a acontecer.

Essa linha foi já ontem pisada pelos taxistas na Rotunda do Relógio. Tic-tac-tic-tac. Têm de ser eles a recuar. Tic-tac-tic-tac. Bandeirada zero. Bastonada zero, é o que toda a gente espera e deseja.

Mas têm de sair. E rapidamente. Senão, vamos chorar todos pelos impostos que pagamos. Sem chiar, nem miar, sem demoras, sem prestações. Assim o Estado não presta. Quando, no fisco e na rua, continua a premiar infratores.

3. Estado-porreiro, onde é tolerado o lanterneiro. Estamos felizes com as Nações Unidas, reconciliados com Guterres, mas a vitória, o mérito fundamental, é da diplomacia. O ministro puxou galões. Não perdeu tempo de reivindicar o seu papel na história. Aceitemos isso. Louvemos Santos Silva. Homenagem a quem conseguiu. Holofotes sobre os vencedores. Ele, que não resistiu ao brilho das câmaras. Aos outros, como o embaixador Mendonça, que não procuram as luzes da ribalta.

New York! King of the world. Convencemos Paris. Derrotámos a Merkel. O mundo aos nossos pés. Até Londres vergou! Pois então que por lá fiquem mais uns tempos.

Com tanta influência, bastam dias para resolver um problema grave, com uma dimensão que ninguém imaginava, um drama, um trauma para dezenas de famílias emigrantes. I Love You Mom foi a reportagem de Ana Leal, que neste fim de semana na TVI mostrou algo inimaginável neste século, neste continente, sobretudo naquele país.

Um submundo tenebroso, legitimado por juízes demasiado diligentes, executado implacavelmente por serviços sociais que mais parecem o KGB da antiga URSS, onde crianças, muitas delas recém-nascidas, são retiradas aos pais que, supostamente, maltratam os filhos.

Demasiados casos, demasiadas perguntas, para nenhumas respostas e tantas suspeitas. Não se concebe que o nosso governo se refugie, não queira interferir na justiça alheia. Sem explicações, aquilo parece tráfico humano. Ora aí está um nobre desafio para a diplomacia que, contra tudo e contra todos, consegue eleger um secretário-geral para as Nações Unidas.

Não ganha glamour, apenas decência. Há gente humilde e desesperada à espera de que alguém atue. Talvez o senhor MNE, quando acabar as entrevistas à CNN.

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