Aqui jazz

1. Há corações, de tão bons, que não deviam parar. Mas param. E os crentes ficam incrédulos, os ateus revoltados, os agnósticos chocados. E as religiões ficam incapazes de justificar a injustiça. E diante das ausências perguntamos como é possível?! Pois nunca estamos preparados para as despedidas. Sobretudo as inesperadas, que são as mais terríveis.

Injustas e inexplicáveis: por que partem os santos se é suposto os santos serem imortais? Aqui jaz Jaime. Aqui jazz Jaime. E blues. E também country music. Ou qualquer género e idade, desde que fosse música, desde que o som fosse bom.

Como o coração dele era. Jaime era Fernandes. Jaime não era afinal de ferro, mas parecia. Uma muralha, muralha de aço, doce e de aço, suave e firme, força, força companheiro Jaime. Se todos dizem que eras um exemplo, então porque não te seguem?

Que sigam o exemplo que eras, claro! Não se pede que te sigam até onde foste. É feio desejá-lo. É pelo menos inconfessável. Sem confissão ou revelação, nada desvendo, ninguém tem nada a ver com isso, são só nossas as conversas que tivemos, as cumplicidades que fomos construindo. Nos últimos anos.

Sim, nos últimos, porque os primeiros, que foram quase 40, passei-os a ouvir a voz que não conhecia. E depois vi a cara daquela voz. Sempre te venerando. E, quando descobri a pessoa, a reverência passou a amor. Amava a pessoa que eras.

Antes e depois, nem por um minuto perdi a referência. Tentarei continuar a fazê-lo. Não para imitar, porque não está ao meu alcance. Mas para nunca perder essa raridade, a de seres o que se espera que um homem seja. A humanidade. A bondade. A incredulidade.

Quase me atrevo a dizer que conheci um tipo puro. Seguramente não santo, se o fosses não tinhas partido desta forma. Nem de outra qualquer.

2. Aqui, nesta mesma coluna, já chorei a morte de quem gostava, como o Zé Fonseca e Costa. Inaugurei este espaço com a memória de Leonardo Ferraz de Carvalho, o meu Leonardo, que quis homenagear nestas quase 130 semanas de colaboração com o Diário de Notícias, batizando a coluna de Bonsai - que foi o título das curtas crónicas que, diariamente, ele publicou no final da década de 90, no Diário Económico, que entretanto desapareceu.

Herberto Helder, que nunca conheci mas li e reli, lamentei-lhe igualmente a morte. O homem morreu, o poeta não. Sim, os jornais morrem, a poesia não. Ninguém a mata, também ninguém a inventou. Porque os poemas são a criação sobre-humana.

A uns e a outros, amigos e desconhecidos, não lhes disse isto: nunca te conheci um defeito. Tinhas que os ter, Jaime. Seguramente não eras santo. Mas não estou sozinho nesta minha dificuldade: "Não me lembro de uma discussão, de um amuo, de uma conversa mais azeda", soluçava o Zé Faísca no teu velório. Eu também não. Não lembro uma queixa. Não me ocorre uma maledicência. Não dizias mal de ninguém! Inabalável, no carácter e na disposição. Eras um homem bom e estavas sempre bem-disposto. Mesmo quando não estavas, cuidavas dos outros. Isso não é coisa pouca.

Semeaste, nas vidas que tocaste, essa tua disposição natural de fazer o bem. Não temos desculpa, portanto. Nós, os desamparados, podemos continuar a ser uns estupores, tipos tramados, mas já não podemos evocar a ignorância. A generosidade não é sinónimo de santidade. Mas eleva alguns homens à condição da imortalidade.

3. A 20 de abril de 2014 comecei a encontrar-me semanalmente com os leitores do DN, com o tal artigo "Abril de Leonardo". Só podia ser assim. Tal como agora não podia ir daqui embora, sem me despedir de ti.

Assunto não faltava. O Domingues na Caixa, os salários dele e a miséria alheia - a pobreza de espírito, que não conta para o per capita mas baixa o PIB potencial. O Orçamento da geringonça que mexe, com uma oposição que adormece e sindicatos que "nem aquece nem arrefece". As presidenciais dos Estados Unidos e Trump, que passou a liderar sondagens no Dia das Bruxas.

Depois de três diretores deste jornal (a todos estou grato), de 30 meses de colaboração e 129 artigos publicados, como escrever os últimos dos 838,5 mil caracteres sem os dedicar a ti?! Bem sei que não vais ler aí. Mas é a forma que tenho para te dar o último abraço, Jaime. Não são despedidas, Jaime, pelo menos para esta não estava preparado.

Havia gente que veio só olhar. Havia gente a sorrir e a chorar. Imortalizada foi a composição de Fernando Brant que Milton cantou. Encontros e despedidas, Jaime. Afinal, chegar e partir são só dois lados da mesma viagem.

.

Mande notícias do mundo de lá

Diz quem fica

Me dê um abraço, venha me apertar

Tô chegando

Coisa que gosto é poder partir

Sem ter planos

Melhor ainda é poder voltar

Quando quero

Todos os dias é um vai e vem

A vida se repete na estação

Tem gente que chega pra ficar

Tem gente que vai pra nunca mais

Tem gente que vem e quer voltar

Tem gente que vai e quer ficar

Tem gente que veio só olhar

Tem gente a sorrir e a chorar

E assim, chegar e partir

São só dois lados

Da mesma viagem

O trem que chega

É o mesmo trem da partida

A hora do encontro

É também de despedida

A plataforma dessa estação

É a vida desse meu lugar

É a vida desse meu lugar

É a vida

Encontros e Despedidas

Letra de Fernando Brant, numa canção composta e originalmente interpretada por Milton Nascimento

Exclusivos

Premium

Leonídio Paulo Ferreira

Nuclear: quem tem, quem deixou de ter e quem quer

Guerrilha comunista na Grécia, bloqueio soviético de Berlim Ocidental ou Guerra da Coreia são alguns dos acontecimentos possíveis para datar o início da Guerra Fria, que alguns até fazem remontar à partilha da Europa em esferas de influência por Churchill e Estaline ainda o nazismo não tinha sido derrotado. Mas talvez 29 de agosto de 1949, faz agora 70 anos, seja a melhor opção, afinal nesse dia a União Soviética fez explodir a sua primeira bomba atómica e o monopólio da arma pelos Estados Unidos desapareceu. Sim, foi o teste em Semipalatinsk que estabeleceu o tal equilíbrio do terror, primeiro atómico e depois nuclear, que obrigou as duas superpotências a desistirem de uma Guerra Quente.