Alerta geral, o diálogo voltou

1 Talvez por estar a escrever este texto à meia-noite de um domingo, não apetece trazer para aqui negócios e ideologias, provar opiniões com contas, sustentar com números ou evocar a globalização para confirmar, com o melhor de "lá de fora", o que está certo ou errado naquilo que vai acontecendo cá dentro. Não há uma posição política, apenas o sentimento do cidadão. E é estranha a sensação, para não dizer mesmo de irritação.

Primeiro porque se ouve sempre a justificação "os outros também fazem assim", procuram-se sempre referências internacionais para coisas absurdas. A comparação com os outros liquida-nos. É aliás essa a nossa maldição desde que entramos na CEE, querer convergir para a média. Há dois problemas neste quadro mental: um é mais filosófico, ou até sociológico, porque o raciocínio da "média" é intrinsecamente medíocre - só os medíocres têm como objetivo atingir a média; o segundo é um problema de lógica, porque um país que está atrás dos outros nunca mais os apanha se se limita a atingir os resultados médios de todos eles.

O estado de ansiedade resulta de vários sintomas recentes, em que:

a) certos sinais de retrocesso estão de novo a aparecer;

b) gente destrutiva mas ruidosa, uns "atrasos de vida" que apenas são movidos pela defesa do statu quo, estão a emergir e a causar embaraço, recuo e cedência dentro deste novo regime;

c) e finalmente porque se vê o conservadorismo ganhar força sobre o progressismo, os grupos instalados e as corporações a reverter uma dinâmica de modernidade e de vanguarda que a nossa economia, as nossas cidades e as nossas regiões haviam adquirido nos últimos anos.

Pode ser apenas uma perceção, um mau pressentimento, mas que a sensação existe, existe. Repito: nada tem de político, mas não posso esconder que a angústia tem algo de déjà-vu, a memória daquela coisa gelatinosa a que chamaram "governo do diálogo" - e mais não foi que uma invenção fofinha do engenheiro Guterres em que, anos a fio, o interesse geral foi sistematicamente subjugado ao poder do lóbi ou do mero protesto. Sabemos o que é ver o Estado capturado pelas pressões de gente organizada e com uma capacidade implacável de bloqueio.

Não precisa de ser rico, basta que grite e agite. À cacetada, é mais eficaz ainda. Não há exclusivos de direita ou esquerda. Há reacionários que desfilam milhares de táxis pelas cidades à sexta. E, dois dias depois, há bandeiras vermelhas e rosas a animar praças e alamedas. As cidades são as mesmas, mas a paralisação vem em forma de greves nas cerimónias do 1.º de Maio.

Pelo meio, as esplanadas dos cafés e das pastelarias são obrigadas a encerrar à meia-noite - fazem barulho, parece - e as lojas de conveniência, que de lojas já tinham pouco, também passam a nada convenientes pois, às dez da noite, ferrolho no trinco.

2 Volto a dizer que a questão nada tem de ideológico, não se trata do reverter, verbo preferido deste governo, mas de uma atitude geral: dá chatice, esquece; cheira a problema, adia. Agradar e reverter - não serão as duas melhores opções para quem quer desbravar novos caminhos e seguir em frente.

Não há dúvidas de que, como aconteceu noutras ocasiões da nossa história, Lisboa e o país progrediram imenso no turismo porque não se limitaram a imitar os outros. Inovar e ousar é incompatível com o tal mimetismo dos comportamentos médios alheios. Para recuperar o atraso, só fazendo diferente e melhor do que todos. E foi o que aconteceu. Tem acontecido, o que mostra que é possível, sim.

Sucede que a mesma Lisboa, o destino turístico mais in do momento, manda os turistas para casa. Porque fazem barulho. Não faz sentido algum, porque evidentemente não são os limites nem a existência de malditos regulamentos que estão em discussão. É uma questão de coerência, é a consistência de uma estratégia que está a dar resultados e, de repente, deixa de bater certo.

Lisboa e Porto revitalizaram-se, os bairros antes desertos e perigosos, a partir de certa hora, ficaram vibrantes e povoados. Comércio e serviços, que antes funcionavam só até às sete da tarde, adaptaram-se, novos empreendedores surgiram e criaram novos conceitos e novas atitudes. E agora o silêncio!? Esta cidade, que não é Nova Iorque, quer afinal dormir. Cool não é fixe. É fria.

Depois de cobrar taxas turísticas, proíbe a diversão e o convívio a partir da meia-noite. Não bate a bota com a perdigota. A competitividade turística demorou trinta anos a conseguir, há centenas, milhares de alternativas na Europa, por todo o mundo, mas agora que conseguimos, fomos bem-sucedidos e revela-se o tuga que há em nós: assim é demais, go home, pouco barulho e vai de táxi, porque o uber não é bem-vindo.

É a mesma cidade que se bate pela Web Summit, que quer atrair gente de outras nacionalidades, novas atitudes, gente pra frente. É a cidade que abre espaços estimulantes e criativos, ela que se abriu a si própria ao contágio da criatividade, que agora regressa ao sufoco de regulamentos, expulsa as pessoas das ruas e as manda para a cama mais cedo.

Não faz sentido, sobretudo porque estão em causa autarcas de primeira linha, no caso de Lisboa seguramente um futuro líder do PS, o que significa, com elevada probabilidade, um futuro primeiro-ministro (declaração de interesses: o que me deixaria orgulhoso, porque sou amigo de Fernando Medina e, simultaneamente, diretor do canal de televisão onde ele faz semanalmente comentário político).

Por considerar Fernando Medina e Rui Moreira dois autarcas de elevada qualidade, só uma coisa pode estar a acontecer: eleições. Já as cheiram, já agem em função delas. A "guerra" absurda do presidente da Câmara do Porto contra a TAP, sobretudo a forma como a fez, só se entende vindo de quem está a funcionar num registo de pré-campanha.

O mesmo com Medina: quando agrada a "moradores" e arrisca o regresso da cidade às noites desertas e desoladoras; quando cede a comerciantes e mata a concorrência de quem está ali a qualquer hora, com o estabelecimento aberto, não no tempo que o comerciante entende mas sempre que qualquer um de nós precisa. Uma das estupefações da minha juventude era ver, em plena Baixa lisboeta, milhares de espanhóis perdidos nas ruas de portas fechadas, porque os comerciantes decidiam partir para a terrinha passar a Páscoa.

3 Quando chega o momento de dar o salto, não se pode ficar com a perna presa. Não é possível ser a capital da Web Summit e simultaneamente mostrar simpatia pela "causa taxista" contra a Uber. Porque a Uber é web. E os taxistas são, na sua população mais representativa, uma cambada de personagens que maltratam as pessoas e se perderam neste nosso tempo.

Governar sob protesto é normal. Governar com o protesto é a democracia em si mesmo. Governar em função do protesto é desistir do motivo mais nobre pelo qual se é eleito. O bem comum. Exatamente o contrário daquilo que mobiliza taxistas, produtores de suínos, ambientalistas inconsequentes e sindicalistas da CGTP que inventam pretextos para a greve e inventam as greves para não desaparecerem.