Em Lisboa, havia menos de três meses

Eu chegara a Lisboa para morar havia menos de três meses. O Brasil, pelo visto, não se conformava, porque me mandava uma média de dez cartas por dia. Cartas a que eu naturalmente respondia, o que gerava mais respostas, provocando com isto um infernal tráfico daqueles lindos envelopes aéreos com bordas nas respectivas cores nacionais. O ano era 1973. Os americanos iam e voltavam da Lua a toda hora, mas as comunicações na Terra - hoje sabemos - ainda estavam mais para o correio a cavalo do que para a nave espacial.

Embora fosse enviada de avião, num voo de pouco mais de dez horas, uma carta entre Brasil e Portugal podia levar até dez dias para chegar. Não se sabe o que a carta ficava fazendo durante todo esse tempo. O curioso é que essa demora não nos perturbava - tudo então era mais lento, mais compatível, talvez, com os batimentos cardíacos.

Você se perguntará por que, em vez de escrever cartas, não usávamos o telefone. Porque, em 1973, as ligações internacionais não eram diretas. Tinham de ser pedidas à telefonista e, até que ela nos ligasse de volta avisando que a ligação se completara e podíamos falar, cinco ou seis horas já haviam se passado. Pois, apesar desse desconforto, também não nos queixávamos. Eu, por exemplo, ao pedir uma ligação, já abria imediatamente o Guerra e Paz, de Tolstói, para ter o que fazer enquanto esperava. Ao cabo de um ano, graças às horas à espera da telefonista, li toda a literatura russa do século XIX.

Bem, como estava dizendo, eu chegara a Lisboa para morar havia menos de três meses. Por aqueles dias, sem me avisar, um amigo meu, de passagem por Lisboa, resolveu me visitar. Alugara um carro e tinha minha direção, mas, como não conhecia a cidade, atrapalhou-se. Em busca de Campo de Ourique, foi parar lá para os lados do Rato ou da Estrela. Cansado de rodar, resolveu parar e pedir instruções a alguém. Era domingo de manhã e as ruas estavam desertas, mas havia um homem encostado a um poste, mascando um palito de fósforo. Meu amigo pôs a cabeça pela janela e perguntou:

"Se faz favor, amigo, conhece a Rua Carlos da Maia?"

O homem, em vez de responder, perguntou: "Qual número?"

O meu amigo, sem entender, consultou o papelucho com o endereço e disse: "39."

O homem insistiu: "39, 2.º? A morada do senhor Ruy Castro?"

Meu amigo não acreditou no que ouvia. Era exatamente isto: Rua Carlos da Maia, 39, 2.º.

"Mas como o senhor sabe que é o endereço do Ruy Castro???"

"É muito simples", disse o homem. "Eu sou o carteiro daquela região. Hoje é o meu dia de folga. E este Ruy Castro recebe cartas do Brasil que se farta!"

Jornalista e escritor brasileiro, autor de, entre outros, Bilac Vê Estrelas (Tinta da China).

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