O precedente está aberto...

Chegámos ao ponto de os estúdios de Hollywood quererem agora desfazer-se dos seus filmes mais "artísticos" e vendê-los à Netflix. A Paramount prescindiu dos direitos internacionais de Aniquilação e fez um acordo com a Netflix, que assim consegue estrear na sua plataforma digital um dos filmes mais esperados da temporada. Abre-se assim o precedente que ameaça a vida comercial do melhor cinema de Hollywood nas salas. Fica-se com a ideia de que cada vez que houver cinema mais arriscado a vir das majors americanas, a solução será sempre esta. As consequências podem implicar um efeito de bola de neve e, num futuro próximo, filmes como Mãe!, de Darren Aronofsky (precisamente da Paramount), nunca mais os vamos encontrar num cinema perto ou longe de nós. O que é assustador neste caso é que uma obra como Aniquilação está fundamentalmente pensada para ser vista num grande ecrã. Os seus efeitos visuais em sintonia com um desconcertante jogo cromático pediam mesmo um ecrã gigante de cinema. A música de Geoff Barrow e Ben Salisbury suplica pela potência dolby de uma boa sala, já para não falar da genial fotografia de Rob Hardy. O próprio realizador do filme, Alex Garland, já veio a público mostrar a sua deceção com o acordo com a Netflix, salientando que Aniquilação é para ser visto nos cinemas. O problema maior nesta questão é que a decisão da Paramount terá que ver com os maus resultados em projeções-teste. Uma decisão puramente financeira e que denota que em Hollywood os executivos dos estúdios continuam a desconhecer o seu produto. Aniquilação nunca seria um filme popular como Arrival - O Primeiro Encontro (também da Paramount...), mas isso já se sabia, bastava ler o argumento e perceber toda a premissa conceptual do projeto. Aniquilação não fez dinheiro decente nos EUA, mas nunca, mas mesmo nunca merecia este castigo do seu estúdio...

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Opinião

"Orrrderrr!", começou a campanha europeia

Através do YouTube, faz grande sucesso entre nós um florilégio de gritos de John Bercow - vocês sabem, o speaker do Parlamento britânico. O grito dele é só um, em crescendo, "order, orrderr, ORRRDERRR!", e essa palavra quer dizer o que parece. Aquele "ordem!" proclamada pelo presidente da Câmara dos Comuns demonstra a falta de autoridade de toda a gente vulgar que hoje se senta no Parlamento que iniciou a democracia na velha Europa. Ora, se o grito de Bercow diz muito mais do que parece, o nosso interesse por ele, através do YouTube, diz mais de nós do que de Bercow. E, acreditem, tudo isto tem que ver com a nossa vida, até com a vidinha, e com o mundo em que vivemos.

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Marisa Matias

Mulheres

Nesta semana, um país inteiro juntou-se solidariamente às mulheres andaluzas. Falo do nosso país vizinho, como é óbvio. A chegada ao poder do partido Vox foi a legitimação de um discurso e de uma postura sexistas que julgávamos já eliminadas aqui por estes lados. Pois não é assim. Se durante algumas décadas assistimos ao reforço dos direitos das mulheres, nos últimos anos, a ascensão de forças políticas conservadoras e sexistas mostrou o quão rápida pode ser a destruição de direitos que levaram anos a construir. Na Hungria, as autoridades acham que o lugar da mulher é em casa, na Polónia não podem vestir de preto para não serem confundidas com gente que acha que tem direitos, em Espanha passaram a categoria de segunda na Andaluzia. Os exemplos podiam ser mais extensos, os tempos que vivemos são estes. Mas há sempre quem não desista, e onde se escreve retrocesso nas instituições, soma-se resistência nas ruas.

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Maria Antónia de Almeida Santos

Ser ou não ser, eis a questão

De facto, desde o famoso "to be, or not to be" de Shakespeare que não se assistia a tão intenso dilema britânico. A confirmação do desacordo do Brexit e o chumbo da moção de censura a May agudizaram a imprevisibilidade do modo como o Reino Unido acordará desse mesmo desacordo. Uma das causas do Brexit terá sido certamente a corrente nacionalista, de base populista, com a qual a Europa em geral se debate. Mas não é a única causa. Como deverá a restante Europa reagir? Em primeiro lugar, com calma e serenidade. Em seguida, com muita atenção, pois invariavelmente o único ganho do erro resulta do que aprendemos com o mesmo. Imperativo é também que aprendamos a aprender em conjunto.