Sobreviver à demasiado previsível consagração de Del Toro

Rui Pedro Tendinha

O crítico que amou Linha Fantasma, de Paul Thomas Anderson, que foi ao céu com o cinema liberal de Spielberg em The Post ou que ficou surpreendido pela exaltante precisão suíça de Três Cartazes à Beira da Estrada, de Martin McDonagh, tem de respirar fundo face à vitória esmagadora de A Forma da Água - dos nove nomeados para melhor filme aquele que menos entusiasmos provocava. Depois desse respirar fundo numa madrugada ingrata, há que encontrar aspetos positivos. Comecemos por um fator de surpresa: afinal, a Academia recusou repetir o que as associações, os Golden Globes e os Bafta fizeram: a tal divisão de prémios. Ou seja, os Óscares, ao contrário dos outros anos, não são o terminus previsível da temporada de prémios. Isso é de salutar, tal como aposta num género não habitual na Academia: o filme de monstros, neste caso uma fábula com um ser marinho com poderes sobrenaturais. A vitória de A Forma da Água consagra a fantasia, coisa rara...

Quanto à dobradinha de Del Toro, o Óscar de melhor realização consagra um cineasta de prestígio no seio do sistema de estúdios. Antes, Del Toro era apenas o "freak" dos filmes de terror. Lembro-me perfeitamente do mexicano me ter contado numa entrevista em Londres, a propósito do lançamento de Crimson Tide - A Colina Vermelha, que a seguir queria fazer um filme pequeno, um filme de conceito. O resultado é este A Forma da Água, obra que poderá ser uma súmula de toda o imaginário do realizador. Apesar de não ter as estrelas de Crimson Tide, a ambição era outra, bastante mais "mainstream". Se quisermos, este é o filme que anuncia o seu desejo de pertencer ao núcleo de Hollywood sem deixar de incluir as suas marcas (leia-se, os seus "monstros"), isto depois de ter penado com encomendas dos estúdios, como foi o caso da sequela de Hellboy ou do primeiro Batalha no Pacífico. O próprio Del Toro sempre disse que esperou vinte anos para chegar a esta aclamação. Além do mais, esta vitória coloca Del Toro em pé de igualdade com os oscarizados Alejandro Iñarritu e Alfonso Cuarón, compatriotas e amigos (já são conhecidos como Os Três Amigos). A Academia, neste caso, tem sido muito pouco xenófoba.

Mas volto a confessar, custa não ver milagres nestas votações - Paul Thomas Anderson terá de esperar...