O marketing dos indies

Um filme com boas críticas reduz-se ao denominador comum intitulado "hype". E o "hype", só por si, entra no subconsciente do espetador antes de comprar o bilhete. "Diz que é bom". E esse "diz que é bom" provoca os tais consensos exagerados

Rui Pedro Tendinha

Primeiro foi Martin Scorsese, depois, mais recentemente, David Lynch. Dois dos maiores cineastas americanos vieram a público queixar-se da forma como os filmes são embrulhados em consensos de via digital. Scorsese abriu-nos os olhos para o simplismo de como o site Rotten Tomatoes atribui as percentagens de opiniões positivas e negativas, enquanto que Lynch protestou também pela ligeireza com que um filme pode ser discutido nas redes sociais. O bom senso mando-nos concluir que esta forma de se julgarem filmes a partir de falsos consensos é um dos novos cancros do cinema americano. Um cancro que se espalha fora da América.

A culpa é também de um sistema que encara o sistema e os valores dos críticos como uma enorme generalização. Chegámos a uma fase em que o que conta para a indústria é se um filme tem validação dos críticos. Se tem 60, 70 ou 80%. Um filme passou a ser visto em termos críticos por números, por percentagens. E essa perceção convém ser instantânea. Sim ou sopas. No máximo, quando há divisões, como aconteceu com mãe!, de Darren Aronofsky, surge a catalogação: "mixed reviews", críticas divididas. É como se a indústria olhasse para os efeitos da crítica, sobretudo a digital, como um dado estatístico.

Um filme com boas críticas reduz-se ao denominador comum intitulado "hype". E o "hype", só por si, entra no subconsciente do espetador antes de comprar o bilhete. "Diz que é bom". E esse "diz que é bom" provoca os tais consensos exagerados, criando até o perigo de se banalizar os grandes filmes. Este ano estamos a viver a aclamação do brilhante Um Lugar Silencioso, de John Krasinsky, mas também deste Hereditário, de Ari Aster, que é tudo menos brilhante e que chega a Portugal com o tal serviço de marketing dos "indie" bem feitinho. Os rotten tomatoes da vida já fizeram dele a última Coca-Cola no deserto.