O meu Tarrafal

Ele não sabia muito bem identificar o momento em que se apercebeu do sítio onde vivia. Não falo do espaço físico da habitação ou da comunidade envolvente. Ele sabia que vivia num bairro, o seu bairro... Era uma criança feliz no seu mundo, fosse este uma artéria chique da Foz ou um bairro de lata de Nairobi. Who cares?

O estigma veio depois, fora dali, quando o bairro passou a ser motivo de olhares desconfiados. Na escola, nas relações sociais, num mero táxi que se apanha até casa. Morada? Bairro São João... A meio da resposta já se notava o silêncio desconfortável, um olhar de esguelha, uma retração corporal. "Já acabei o serviço", desculpava-se tantas vezes o taxista.

O mundo feliz da infância era um dos piores guetos da cidade. "Supermercado de droga a céu aberto", ouvia-se a toda a hora. A realidade era da cor da morte que todos os dias visitava o Vale dos Leprosos, a zona do bairro por onde ele dantes se aventurava até à loja dos gelados.
O estigma afetou-o como a tantos dos seus amigos. Os que não sucumbiram no vale, pelo menos. Mesmo que, por vezes, o bairro também desse jeito. Se o Tarrafal era o sítio para onde o regime mandava os mais indesejados, imaginem o porquê da alcunha. Impunha respeito perante rufias.

Ele partiu. E o bairro, como o conhecera, entretanto foi abaixo. Vinte anos depois, numa livraria, uma capa chama-lhe a atenção. São João de Deus é o livro que conta (e mostra, sobretudo, com fotografia de André Cepeda) a história de um bairro agora apontado como exemplo de requalificação, um lugar intervencionado primeiro à força de bulldozers (como bandeira eleitoral de um ex-autarca) e agora com o traço do arquiteto Nuno Brandão Costa, inspirado no movimento SAAL pós-25 de Abril.

"Precisamos menos de política de habitação social e mais de política social de habitação.
A habitação social não pode ser um estigma", lê. E fica a pensar: "Era mais disto, por favor."
Aquele ele era eu e a morada Bairro São João de Deus, Bloco 8, Entrada 84, Casa 42.

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A América foi fundada também por angolanos

Faz hoje, 25 de agosto, exatos 400 anos que desembarcaram na América os primeiros negros. Eram angolanos os primeiros 20 africanos a chegar à América - a Jamestown, colónia inglesa acabada se ser fundada no que viria a ser o estado da Virgínia. O jornal The New York Times tem vindo a publicar uma série de peças jornalísticas, inseridas no Project 1619, dedicadas ao legado da escravatura nos Estados Unidos. Os 20 angolanos de Jamestown vinham num navio negreiro espanhol, a caminho das minas de prata do México; o barco foi apresado por piratas ingleses e levados para a nova Jamestown. O destino dos angolanos acabou por ser igual ao de muitos colonos ingleses: primeiro obrigados a trabalhar como contratados e, ao fim de alguns anos, livres e, por vezes, donos de plantações. Passados sete anos, em 1626, chegaram os primeiros 11 negros a Nova Iorque (então, Nova Amesterdão) - também eram angolanos. O Jornal de Angola publicou ontem um longo dossiê sobre estes acontecimentos que, a partir de uma das maiores tragédias da História moderna, a escravatura, acabaram por juntar o destino de dois países, Angola e Estados Unidos, de dois continentes distantes.