O meu Tarrafal

Ele não sabia muito bem identificar o momento em que se apercebeu do sítio onde vivia. Não falo do espaço físico da habitação ou da comunidade envolvente. Ele sabia que vivia num bairro, o seu bairro... Era uma criança feliz no seu mundo, fosse este uma artéria chique da Foz ou um bairro de lata de Nairobi. Who cares?

O estigma veio depois, fora dali, quando o bairro passou a ser motivo de olhares desconfiados. Na escola, nas relações sociais, num mero táxi que se apanha até casa. Morada? Bairro São João... A meio da resposta já se notava o silêncio desconfortável, um olhar de esguelha, uma retração corporal. "Já acabei o serviço", desculpava-se tantas vezes o taxista.

O mundo feliz da infância era um dos piores guetos da cidade. "Supermercado de droga a céu aberto", ouvia-se a toda a hora. A realidade era da cor da morte que todos os dias visitava o Vale dos Leprosos, a zona do bairro por onde ele dantes se aventurava até à loja dos gelados.
O estigma afetou-o como a tantos dos seus amigos. Os que não sucumbiram no vale, pelo menos. Mesmo que, por vezes, o bairro também desse jeito. Se o Tarrafal era o sítio para onde o regime mandava os mais indesejados, imaginem o porquê da alcunha. Impunha respeito perante rufias.

Ele partiu. E o bairro, como o conhecera, entretanto foi abaixo. Vinte anos depois, numa livraria, uma capa chama-lhe a atenção. São João de Deus é o livro que conta (e mostra, sobretudo, com fotografia de André Cepeda) a história de um bairro agora apontado como exemplo de requalificação, um lugar intervencionado primeiro à força de bulldozers (como bandeira eleitoral de um ex-autarca) e agora com o traço do arquiteto Nuno Brandão Costa, inspirado no movimento SAAL pós-25 de Abril.

"Precisamos menos de política de habitação social e mais de política social de habitação.
A habitação social não pode ser um estigma", lê. E fica a pensar: "Era mais disto, por favor."
Aquele ele era eu e a morada Bairro São João de Deus, Bloco 8, Entrada 84, Casa 42.

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Os aspirantes a populistas

O medo do populismo é tão grande que, hoje em dia, qualquer frase, ato ou omissão rapidamente são associados a este bicho-papão. E é, de facto, um bicho-papão, mas nem tudo ou todos aqueles a quem chamamos de populistas o são de facto. Pelo menos, na verdadeira aceção da palavra. Na semana em que celebramos 45 anos de democracia em Portugal, talvez seja importante separarmos o trigo do joio. E percebermos que há políticos com quem podemos concordar mais ou menos e outros que não passam de reles cópias dos principais populistas mundiais, que, num fenómeno de mimetismo - e de muito oportunismo -, procuram ocupar um espaço que acreditam estar vago entre o eleitorado português.