O 13 de maio e as peregrinações da avó Hermínia

Mais do que fevereiro, em que ela fazia anos, ou dezembro, em que o Natal nos reforça as afetividades e a nostalgia familiares, o mês de maio é aquele que me faz evocar mais a memória da minha avó materna.

O 13 de maio era a data mais importante do calendário herminiano (de Hermínia, a minha avó), tenho poucas dúvidas sobre isso. Ultradevota da Nossa Senhora de Fátima, percorria quase todos os anos os caminhos de fé que a levavam até ao santuário naquele dia, onde era para mim comovente ver a sua alegria e sentir-lhe a paz interior. A avó Hermínia, por vezes azeda e rezingona, com marcas de uma vida dura na alma, era ali uma mulher feliz como em poucos outros sítios (durante muitos anos pensei que aquele sorriso era só meu e da Nossa Senhora...). Lembro-me de a ver, de joelhos no chão, esfolados, a percorrer aqueles metros finais que pareciam quilómetros em pleno santuário, com um esgar de felicidade que eu não entendia. Como era possível sorrir na dor, com os joelhos raiados de sangue? Em prol de quê?

Lembro-me de estar ao lado dela, bem pequeno, entre a excitação e o sono, a tentar espreitar pelo meio da multidão e das velas, para ver a passagem daquele homem misterioso venerado por toda a gente ali, na noite em que (só mais tarde tive consciência disso) João Paulo II escapou ao atentado do espanhol Juan Krohn na escadaria do Santuário de Fátima.

Deixei cedo de partilhar essas vivências de fé com a avó Hermínia. Transferi a crença para outros domínios mais mundanos, admito. Mas tenho hoje pena de não ter valorizado, então, mais a viagem do que o destino. Agora, quando os grupos de peregrinos na berma das estradas anunciam o mês de maio, eu lembro-me sempre da avó Hermínia. E de como aquele sorriso faz valer a jornada, seja qual for o destino ou o motivo que nos faça pôr os pés ao caminho.

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