4 de março de 2001

Era um fim de domingo chuvoso, de inverno, e eu aguardava que os últimos minutos de um jogo já decidido passassem, no antigo estádio das Antas, para enviar o texto e ir para casa. De repente, o telemóvel toca e ouço o mestre António Castro, com uma voz mais grave do que o habitual: que esquecesse o jogo, precisavam que eu saísse rapidamente rumo a Entre-os-Rios.

Foi a 4 de março de 2001. O resto da história é por demais conhecido: uma ponte que caiu, 59 pessoas que morreram, 36 corpos que nunca apareceram, uma das maiores tragédias do Portugal deste século, sem paralelo antes dos incêndios de Pedrógão.

Nos meses seguintes, voltei a Entre-os-Rios algumas vezes; cinco anos depois regressei em reportagem; e vou "regressando" sempre, ano a ano, quando nós, media, assinalamos a efeméride e resgatamos nomes e histórias - a primeira bebé (hoje adolescente) pós-tragédia, os gémeos adotados que recuperaram sorrisos a uma família, mas também as casas abandonadas e outros problemas nunca superados...

Sobre o rio, a ligar as margens de Entre-os-Rios, Penafiel de um lado, Castelo de Paiva do outro, estão agora duas pontes lado a lado. Olhando para trás, percebemos que não passaram de uma tentativa de expiarmos um peso na consciência coletiva do país. E que os muros continuam a ser muito mais altos do que as pontes na forma como este país trata o seu interior.

Há dias, uma pequena notícia de rodapé chamou-me a atenção: adjudicada a primeira fase do IC35, um troço de três quilómetros entre Penafiel e Rans.

Esta via rápida tinha sido uma promessa validada por todos os partidos, logo após a tragédia da Ponte Hintze Ribeiro, como obra fundamental para o desenvolvimento da região. Dezanove anos e muitos adiamentos depois, vê por fim adjudicado o seu primeiro passo em frente (três dos 70 quilómetros previstos).

E isso, mesmo que mais valha tarde do que nunca, é sobretudo uma notícia triste.

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