Quatro temas que incendeiam os próximos quatro meses

Rosália Amorim

Depois do folclore do verão recomeça a guerra política e aguçam-se as disputas entre os partidos na rentrée. Quatro assuntos prometem aquecer os próximos quatro meses de outono-inverno.

1 - Veja-se o caso da descentralização, uma bandeira do PS que volta agora ao debate - vamos ver se pelos melhores motivos... Tudo o que implique gastar mais dinheiro e criar mais cargos ou "tachos" para amigos soa a despesismo e a favorecimentos. A descentralização de competências é uma coisa, a criação de mais organismos e cargos locais é outra bem distinta. Estará a estratégia da descentralização realmente a ser pensada do ponto de vista daquilo que interessa para o futuro do país ou já entrámos mesmo em campanha eleitoral?

2 - Falando em pensar no país e nas suas gentes, Fernando Medina, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, levantou o tema dos passes sociais ao anunciar que fez uma proposta ao executivo para que os passes usados na circular na Área Metropolitana de Lisboa não passem dos 40 euros. Logo se apurou que a medida se estende ao Porto... E em seguida, perante as polémicas instaladas entre vários municípios, o governo veio admitir reduzir os preços dos passes sociais nos transportes públicos para todo o país. Esta é uma medida que reflete um pensamento que tem em conta as finanças e uma estratégica social para o povo que habita esta nação ou já entrámos em campanha eleitoral?
Com as contas do Estado no estado em que estão fica a dúvida. Já foi estimado pelo próprio executivo que a medida, a ser a provada, custará aos cofres do Estado cerca de 60 milhões de euros na Área Metropolitana de Lisboa e entre os 15 e os 20 milhões na Área Metropolitana do Porto. Para o resto do país ficará entre os cinco e os dez milhões de euros. Vamos ver se a medida será incluída no Orçamento do Estado para 2019, alargada a todo o país e suportada, em parte, pelos municípios como está agora previsto.

3 - Meio milhão de euros de fundos destinados à reconstrução de casas de primeira habitação em Pedrógão, afetadas pelos incêndios do ano passado, terão sido desviados para habitações não prioritárias, isto é, casas de segunda habitação. O Ministério Público abriu um inquérito para investigar as alegadas irregularidades na utilização de fundos. Já é motivo de notícia o facto de certos cidadãos, que se julgam mais espertos do que outros, tentarem aproveitar-se dos fundos para reconstruir segundas e não primeiras habitações, mas é mais grave ter sido um fundo gerido pelo Estado a validar algumas dessas candidaturas e financiamentos. O povo pergunta: mas ninguém vai ao terreno ver, averiguar, perguntar e só depois validar? Atribui-se dinheiro sem certezas nem confirmações?

4 - E afinal para onde estão a ir os nossos impostos quando corremos o risco de ficar parados numa estação ou num apeadeiro e o comboio não passa? O estado da ferrovia, onde nunca se apostou verdadeiramente e de uma forma estratégica como fizeram outros países da Europa, e o desgaste do material circulante fazem de Portugal um país que não se pode orgulhar do seu sistema de transporte ferroviário. Esta área que poderia dar um grande contributo para a descarbonização da economia e cumprimento da meta do MEET 20-30 está cada vez mais aquém do seu potencial e por motivos óbvios: falta de investimento. Leia mais AQUI

Em suma, de momento, nenhum órgão de soberania demonstra estar, realmente, a pensar o país de forma estratégica e prospetiva. Passado o calor, espero que a rentrée volte a trazer uma certa frescura ao pensamento político e económico!