O endividamento e o Natal

Manuel Carlos FreireRosália Amorim

Todos gostamos de uma boa festa de Natal, de ter a família reunida à mesa, de dar graças, do sentimento de união e de pertença que se reforça nesta época festiva. Isto é o Natal, pelo menos para mim. O consumo desenfreado não sinónimo do verdadeiro Natal. Pode ser várias outras coisas: uma forma de compensar a atenção que não se deu aos filhos e aos familiares durante todo o ano, uma forma de colmatar alguma frustração, uma atitude de exibicionismo ou simplesmente um vício de comprar e comprar muito. Infelizmente para muitos portugueses o Natal é apenas e só isso: compras, sem sentido nem sentimento.

Perdoem-me os comerciantes, que precisam de vender e de faturar, mas voltemos a centrar-nos no essencial: o nascimento e a família.

Uma das consequências do deslumbramento com o crescimento económico que Portugal tem vindo a registar, trimestre após trimestre, é o endividamento. Este indicador económico tem tendência a acentuar-se, todos os anos, nesta quadra festiva. No final do mês passado foram revelados os números da dívida contraída pelos particulares junto do setor financeiro e essa dívida subiu 200 milhões de euros em setembro em relação ao mês anterior, segundo o Boletim Estatístico do Banco de Portugal.

No total, o endividamento do setor não financeiro fixou-se em 721,1 mil milhões de euros em setembro de 2017, "dos quais 317,2 mil milhões de euros respeitavam ao setor público e 403,9 mil milhões ao setor privado.

Já no mais recente boletim económico do Banco de Portugal, de 15 de dezembro, o tema voltou a estar entre as preocupações. O banco central escreveu que "nos últimos anos, observou-se uma reafetação crescente de recursos para o setor dos bens e serviços transacionáveis, que se repercutiu num aumento do crescimento potencial da economia portuguesa. No entanto, permanecem fragilidades estruturais que não podem ser ignoradas. Estas fragilidades refletem-se no ritmo lento projetado para o processo de convergência real da economia portuguesa. O atual momento cíclico deve ser aproveitado para a correção dos grandes desequilíbrios macroeconómicos que permanecem, nomeadamente para a redução do endividamento público e privado." O Banco de Portugal já avisou que poderá acionar o travão a novos créditos e à concessão de crédito às famílias para compra de casa, em 2018. Não aumentar o endividamento e a taxa de esforço poderá ser uma das resoluções de ano novo de cada um de nós. Até para o bem das nossas famílias!