A política, os media e um rumo

Foram muitos os que estranharam e duvidaram das competências e do talento de João Miguel Tavares para presidir às comemorações do 10 de junho, Dia de Portugal.

João Miguel Tavares teve o dom de, com uma simplicidade alentejana, falar pelos portugueses, de uma forma clara, sem peneiras, soprando palavras num microfone - que se transformou num autêntico megafone -, que deram vida às preocupações que ocupam os pensamentos de um cidadão comum. "Não é fácil saber porque é que estamos a lutar hoje em dia, é nessa dificuldade que repousam tantas das nossas angústias", disse, e sublinho.

O presidente das comemorações deste ano foi o primeiro filho da democracia a ocupar esta função. Também eu sou uma das primeiras filhas da democracia, nasci pouco depois do 25 de Abril, ouvi os meus pais, avós e tios falarem da razão da revolução, do verdadeiro valor da liberdade, da igualdade de oportunidades, da meritocracia... E, olhando para trás, 45 anos depois, parece que ainda pouca coisa mudou em alguns detalhes.

Alguns políticos, mesmo sem a ditadura, continuam a servir-se a si próprios em vez de servir os outros; a liberdade tem ficado tantas vezes refém da realidade económica, seja por efeito da troika seja das cativações; as oportunidades ainda não são iguais para todos, mas são mais para quem pertence à família x ou y e sobe no poder privado e público; e a meritocracia... a meritoquê? Meritocracia é uma palavra ainda muitas vezes esquecida em Portugal. Exceto na TAP, claro, que apesar de registar elevados prejuízos não se inibe de premiar trabalhadores, distribuindo 1,171 milhões de euros.

Portugal e os portugueses precisam de ser mais exigentes consigo próprios. De cobrar, de escrutinar, de não ter medo de denunciar. E nesta matéria os jornais, os meios de comunicação social em geral independentemente da plataforma em que são distribuídos, têm um papel fundamental, como fiel da balança de uma democracia que se quer equilibrada, saudável, justa e transparente.

Os media, com mais ou com muito menos recursos, trabalham todos os dias para fazer a sua parte e lutam por um Portugal mais verdadeiro. Falta que alguns políticos façam o mesmo. Porque, como disse João Miguel Tavares, "precisamos de sentir que contamos para alguma coisa, para além de pagar impostos", "precisamos de saber porque lutamos" e "a política falha quando deixa o país sem rumo". Sim, ter um rumo é ter um sentido para a vida, para a nação.

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