Rosália Amorim

Os aspirantes a populistas

PremiumO medo do populismo é tão grande que, hoje em dia, qualquer frase, ato ou omissão rapidamente são associados a este bicho-papão. E é, de facto, um bicho-papão, mas nem tudo ou todos aqueles a quem chamamos de populistas o são de facto. Pelo menos, na verdadeira aceção da palavra. Na semana em que celebramos 45 anos de democracia em Portugal, talvez seja importante separarmos o trigo do joio. E percebermos que há políticos com quem podemos concordar mais ou menos e outros que não passam de reles cópias dos principais populistas mundiais, que, num fenómeno de mimetismo - e de muito oportunismo -, procuram ocupar um espaço que acreditam estar vago entre o eleitorado português.

Anselmo Crespo

Ucrânia: Mais um país que aposta no escuro

Então, lá foi eleito. Vladimir Zelenski, 41 anos, comediante, sem nunca antes ter estado na política, candidato que apareceu sem programa, sem fazer promessas nem comícios, foi eleito presidente da Ucrânia, plebiscitado por quase três em quatro ucranianos (73 por cento). A Ucrânia, na Europa o país do destino próximo mais perigoso, vizinho e em latente conflito armado com a Rússia, atirou-se para os braços de um desconhecido...

Ferreira Fernandes

Quando as bombas matam Silvas e Fonsekas

Haverá Silvas e Fonsekas entre os mortos. E também Fernandes ou Dias, quase de certeza. O ataque às igrejas do Sri Lanka foi um ataque a uma minoria religiosa cuja origem remonta ao século XVI, quando a pequena ilha vizinha da Índia foi colonizada pelos portugueses. Ainda há poucos anos o Papa Francisco reconheceu essa evangelização ao canonizar José Vaz, um padre goês que tanto Portugal como a Índia podem reivindicar entre os seus santos. Falava português e konkani, além do cingalês.

Leonídio Paulo Ferreira

Entre a Sexta-Feira Santa e a Páscoa: Sábado

Crentes ou não crentes - quem o disse foi George Steiner - é em Sábado que vivemos. Que é que isto quer dizer? Todos, de um modo ou outro, em nós mesmos e no mundo, constatamos e vivemos a Sexta-Feira Santa do sofrimento, do horror, da violência, do silêncio e da noite, e todos, de um modo ou outro, de forma mais explícita ou menos explícita, mais consciente ou menos, é pelo Domingo, o Domingo da Páscoa, que suspiramos e esperamos, a Páscoa da salvação.

Anselmo Borges

A Europa, da gasolina lusa ao palhaço ucraniano

Estamos assim, perdidos algures entre as urnas eleitorais e o comando da televisão. As urnas estão mortas e o nosso comando não é nenhum. Mas, ao menos, em advogado de Maserati que conduz sindicalistas podíamos não ver matéria de gente rija como cornos. Matéria perigosa, sim. Em Portugal como mais a leste. Segue o relato longínquo para vermos perto.Ontem, defrontaram-se os dois candidatos a presidir a Ucrânia. Não é assunto irrelevante apesar de vivermos no outro extremo da Europa. Afinal, num canto ainda mais a leste daquele país há uma guerra civil meio instigada pelos russos - e hoje sabemos, como não sabíamos ainda há pouco, que as guerras de anteontem podem voltar.

Ferreira Fernandes

Greta Thunberg

PremiumA Antonia estava em Estrasburgo e aproveitou para vir ao Parlamento assistir ao discurso da Greta Thunberg, que para ela é uma heroína. A menina de 7 ou 8 anos emocionou-se quando a Greta se emocionou e não descolou os olhos enquanto ela falava. Quando, no final do discurso, se passou à ronda dos grupos parlamentares, a Antonia perguntou se podia sair. Disse que tinha entendido tudo o que a Greta tinha dito, mas que lhe custava estar ali porque não percebia nada do que diziam as pessoas que estavam agora a falar. Poucos minutos antes de a Antonia ter pedido para sair, eu tinha comentado com a minha colega Jude, com quem a Antonia estava, que me envergonhava a forma como os grupos parlamentares estavam a dirigir-se a Greta.

Marisa Matias

O governo continua a enganar os professores

PremiumNesta semana o Parlamento debateu as apreciações ao decreto-lei apresentado pelo governo, relativamente à contagem do tempo de carreira dos professores. Se não é novidade para este governo a contestação social, também não é o tema da contagem do tempo de carreira dos professores, que se tem vindo a tornar um dos mais flagrantes casos de incompetência política deste executivo, com o ministro Tiago Brandão Rodrigues à cabeça.

Margarida Balseiro Lopes

Mindfulness e camionismo

Temos todos de agradecer aos motoristas de coisas perigosas terem-nos recentrado em coisas importantes. Dados adquiridos, cartas contadas, pássaros na mão. Uma delas é terem-nos feito ver a dependência do petróleo, a carbonização das nossas vidas. Claro que sabemos, lemos e por isso não ignoramos que uma laranja tem 70% ou assim de petróleo, no transporte, nos pesticidas, na energia que tornou aquela terra fértil, nas luzes da loja, no plástico da embalagem. Mas não vemos da melhor forma de ver que é a que magoa os olhos. E isso é muito positivo, pelos dois lados, quer porque demonstra aos que acreditam que é já hoje possível uma vida descarbonizada que não sabem do que falam, como a todos os que realmente querem fazer algo, o muito que falta por fazer, e o importante que é andar mais rapidamente na mobilidade elétrica e micromobilidade, na logística urbana não dependente de petróleo e nas formas alternativas de produção.

João Taborda da Gama

Força chinesa ou fraquezas ocidentais

PremiumNo longo processo de degradação e recomposição do sistema internacional, a China aparece como o ator com rumo político mais consistente. Em 2008, escrevi que a China está para o século XXI como a Alemanha unificada em 1871 esteve para o século XIX: um novo grande poder, desequilibrando as relações de força e as alianças tradicionais. Contudo, uma análise mais atenta revela que há um manifesto exagero no discurso de alerta contra os perigos representados pela China. Na verdade, os sucessos que a China vai obtendo são ampliados, no que à UE diz respeito, pela ausência de uma visão de mundo comum e duradoura por parte dos europeus. O mesmo ocorre com os limites e as oscilações da estratégia dos EUA. Para passar das palavras aos factos, nada melhor do que ler um indicador muitas vezes esquecido: o do investimento direto estrangeiro, expresso em euros, entre as três maiores potências económicas mundiais: EUA, UE e China. Se compararmos o stock do investimento direto da China nos EUA e na UE (192 mil milhões) com o valor do investimento dos EUA na UE e na China (2,66 biliões), e o montante do investimento da UE na China e nos EUA (2,63 biliões), verificamos que os EUA e a UE apresentam valores 12 vezes superiores aos do investimento chinês! O crescimento do dragão asiático tem sido um "negócio da China" para a elite dos super-ricos europeus e norte-americanos, que ganharam em todos os tabuleiros da globalização.

Viriato Soromenho-Marques

As novas amêndoas

PremiumQuando eu era pequena, em nossa casa as compras faziam-se ao mês num grande armazém; e lembro-me de ver chegar de uma assentada uma grande saca de batatas (que ia logo para a varanda), pacotes de arroz, farinha, massa, feijão, sal e açúcar, garrafas de azeite e óleo, embalagens de bolacha maria, frascos de compota, azeitonas e sei lá que mais. Nada era especialmente apetecível, excepto as tabletes de chocolate para fazer mousse (que quase sempre desapareciam misteriosamente da despensa ao fim de uma semana) e um saco de rebuçados sortidos iguais aos que as pastelarias vendiam em frascos de vidro, sendo os meus favoritos umas bolas com sabor a tangerina. Em crianças, todos éramos bastante gulosos lá em casa, e eu paguei caro o vício: vendo numa tarde ao lado do fogão o que parecia um delicioso caramelo embrulhado em papel de prata, mastiguei a coisa mais salgada e horrível de que tenho memória: um cubo de caldo de galinha! Mas não fui a única castigada: a minha irmã enfiou na boca três rebuçados de uma só vez e engasgou-se de tal maneira que foi preciso bater-lhe nas costas com toda a força... Os rebuçados até saíram disparados, chocando com a parede.

Maria do Rosário Pedreira

"Petróleo, não!" Nesta semana já estivemos perto

Premium1. Uma coisa é termos uma vaga ideia de quão estupidamente dependemos dos combustíveis fósseis. Outra, vivê-la em concreto. Obrigado aos grevistas. A memória perdida sobre o "petróleo" voltou. Ficou a nu que temos de fugir dos senhores feudais do Médio Oriente, das oligopolísticas, campanhas energéticas com preços afinados ao milésimo de euro e, finalmente, deste tipo de sindicatos e associações patronais com um poder absolutamente desproporcionado.

Daniel Deusdado

A austeridade, afinal, acabou ou não?

Desapareceram, aos poucos, os economistas e afins que, por moto próprio ou respondendo a perguntas acertadas, durante anos nos disseram que era preciso austeridade, que era preciso cortar nos salários, nas pensões, nas ajudas à pobreza, nas fundações, nos institutos, no que fosse. Desaparecidos que estão, não podemos contar com eles para responder a uma das grandes perguntas que tem grassado o debate público dos últimos três anos. Todavia, muitos dos que fizeram as perguntas ou criaram o ambiente próprio recordam-nos afincadamente que a austeridade continua, sempre a mesma, sem dúvidas e sem enganos. Acrescentam apenas que é uma austeridade disfarçada e não assumida. Em que ficamos, continuamos ou não com a austeridade?

Pedro Lains