Web Summit: entre a experiência religiosa e a venda de carros usados

Qualquer pessoa que tenha esta semana visto apenas noticiários em Portugal só pode ter concluído que Lisboa foi a capital do mundo. As muitas horas de tempo de antena nas televisões e equivalentes páginas de jornais dedicadas à Web Summit transmitiram a ideia de que toda a indústria tecnológica esteve por cá, que o futuro se apresentou, projetou e foi decidido no agora batizado Altice Arena.

Qualquer pessoa que tenha esta semana visto apenas noticiários fora de Portugal e não tenha negócios ligados a startups ficou talvez a saber, na melhor das hipóteses, que o físico Stephen Hawking alertou - pela enésima vez só no último ano - para os riscos e oportunidades que as tecnologias de inteligência artificial trazem à humanidade. Esta foi basicamente a cobertura mediática da imprensa generalista em língua inglesa da "melhor conferência de tecnologia do planeta", como se anuncia o evento que decorreu entre segunda e quinta-feira em Lisboa.

Aliás, nem a presença por teleconferência do físico mais famoso do mundo ajudou a prender as atenções dos media internacionais no evento. Estes descobriram logo depois que, no domingo, Hawking tinha feito uma intervenção semelhante na conferência chinesa Tencent WE, na qual alertou que a Terra pode tornar-se incapaz de suportar vida daqui a 600 anos se continuarmos a consumir recursos ao ritmo atual. Essas palavras ainda ontem continuavam a ser noticiadas como novas...

A realidade da importância da Web Summit, como habitualmente acontece, está algures entre a hiperexcitação típica do país quando cá se realiza algo de dimensão internacional e a quase indiferença do resto do mundo (uma simples pesquisa no Google News em inglês permite concluir que a greve da Uber foi mais noticiada do que qualquer evento realizado no interior do pavilhão).

Muito cinicamente, convém lembrar que a Web Summit é, acima de tudo, ótima para quem a inventou. Paddy Cosgrave teve em 2009 aquilo que todas as startups precisam: uma ideia. E a capacidade de a pôr em prática. Criou uma startup com o objetivo de reunir startups que lhe pagam para isso. Genial!

As dimensões atuais da cimeira, com 60 mil participantes, garantem-lhe obviamente um papel relevante no setor - fazem-se aqui muitos negócios. E o movimento de pessoas, com consequente impacto nas atividades ligadas ao turismo, são sem sombra de dúvida excelentes para Portugal. Isso é indiscutível.

Já o que a iniciativa traz, de facto, para quem não está a ela diretamente ligado (i.e., não tem uma startup, não pretende criar uma nem procura negociar com uma) é mais duvidoso.

Ao contrário da ideia que fizeram passar as conferências no auditório principal, a maioria seguidas pela audiência com um fervor quase religioso, o futuro faz-se nos laboratórios das universidades e nos departamentos de R&D. É muito engraçado ter no palco umas espécies de androides a dizer: "Vamos ficar com os vossos empregos" - frase curiosamente recebida na plateia com risos por quem, aparentemente, vai ficar desempregado. Mas este não é seguramente o ambiente certo para discutir as questões técnicas por trás dos robôs nem, muito menos, as implicações socioeconómicas que eles podem representar.

Fora das palestras, os stands e outras apresentações têm um único propósito: atrair investidores.

Que é como quem diz, faz-se o que se pode para vender.

O que não tem mal nenhum - muito pelo contrário. Já dizer que é aqui que se define o futuro, como nos fartámos de ouvir esta semana, está errado. E irrita.

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