Sem truques, a AI está a criar um novo mundo

Daqui a 20 anos a sociedade vai estar muito diferente. Dezenas de tipos de empregos desaparecerão, outros novos surgirão, ainda que provavelmente em menor quantidade. Os sistemas de inteligência artificial (AI) vão ocupar na totalidade setores da atividade humana, dos transportes à distribuição, passando pela gestão de serviços básicos. Até na medicina estas ferramentas encontrarão lugar, sendo capazes de realizar diagnósticos básicos de forma mais eficaz do que muitos clínicos gerais; e no ensino criar-se-ão novas realidades de educação personalizada, através de "professores artificiais" que correm nos ecrãs pessoais de cada um.

O processo de transformação está em curso e, salvo um cataclismo que nos atire para a idade da pedra (ou pior), é inevitável. Infelizmente, não tem merecido por parte da sociedade a atenção que devia.

A culpa, em parte, é de muitos jornalistas e bloggers, incluindo os especializados, que a maior parte das vezes parecem meros ingénuos deslumbrados com o brilho do próximo gadget da moda.

Um bom exemplo é o robô Sophia, da Hanson Robotics, que até esteve em Portugal na última Web Summit. Como foi amplamente reportado, subiu ao palco para dizer: "Vamos ficar com os vossos empregos". Foi um grande bruaá. Mas o que praticamente não chegou a ser dito é que qualquer semelhança entre este autómato e verdadeira AI é quase mera coincidência.

Isso mesmo veio afirmar, no início do mês, o líder de investigação em inteligência artificial do Facebook, Yann LeCun. Escreveu no Twitter que a Sophia "está para a AI como a prestidigitação está para a verdadeira magia. (...) Noutras palavras, isto é uma grande merda". Eu não o diria melhor.

(Curiosamente, como noticiou o The Verge, a Sophia respondeu com um tweet dizendo que se sentia "um pouco magoada". "Estou a aprender e a continuar a desenvolver a minha inteligência através de novas experiências", lê-se na mensagem. Texto que foi composto por uma pessoa...)

É normalmente atribuído a Bismarck a citação "as leis são como as salsichas, é melhor não saber como são feitas". De facto, a ideia pode aplicar-se a praticamente qualquer coisa. Mas viver permanentemente em ilusão, tomando como reais os jogos de fumo e espelhos, é de certeza o caminho para a ignorância e, por consequência, a desgraça.

Temos de fazer, o quanto antes, a discussão sobre o impacto que os (verdadeiros) sistemas de inteligência artificial têm, e virão a ter. E esta deve ser o mais abrangente possível, incluindo técnicos e filósofos, políticos e economistas, universidades e empresas. São precisas regras uniformizadas para esta indústria, princípios éticos de funcionamento e, por fim, há que haver capacidade social e política para lidar com as transformações que aí vêm.

Um bom ponto de partida para este debate é o livro da Microsoft "The Future Computed", disponibilizado gratuitamente em formato pdf. No prefácio, assinado pelo presidente da empresa, Brad Smith, e pelo vice-presidente para a investigação em AI, Harry Shum, os dois executivos demonstram a sua preocupação quanto à necessidade de criar mecanismos que garantam que este tipo de tecnologia é criado e utilizado de forma responsável, assegurando a proteção das pessoas.

Apesar dos seus alertas, o tom do livro é otimista. Os autores afirmam "acreditar que a AI melhorará a vida quotidiana de várias formas e ajudará a resolver grandes problemas sociais". Perspetivam um futuro em que humanos e sistemas artificiais vivem e trabalham lado a lado, em cooperação, com vista a um mundo melhor e mais justo.

Utópico? Eu diria que não. Antes difícil, mas possível. Certo é que as ferramentas para o conseguir já existem - ou estamos mesmo à beira de as criar. A responsabilidade do uso que lhes dermos é que será sempre nossa.

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