Os jornalistas de tecnologia são estúpidos?

Ainda que dedique este espaço quase exclusivamente a temas de ciência e tecnologia, há alguns assuntos sobre os quais em princípio não escrevo. Nada digo sobre a experiência de comprar conteúdos no iTunes, da Apple; nem acerca de jogos da Xbox, da Microsoft; ou muito menos posso perorar relativamente às linguagens matemáticas necessárias para a computação quântica.

As razões são simples: não uso; não tenho; não percebo. E, claro, poderia dar mais exemplos.

Só que a simples regra de só opinar acerca de qualquer assunto sobre o qual tenha informação bem sustentada ou experiência direta não é, nitidamente, seguido por muitos (possivelmente a maioria) dos bloggers e jornalistas que escrevem sobre tecnologia.

Não porque sejam desonestos, ou estejam "comprados", como gostam de dizer nas redes sociais os "treinadores de bancada" (leia-se trolls). O que acontece é que a pressão de produzir diariamente conteúdos e a necessidade de encontrar títulos que chamem a atenção (leia-se deem cliques) leva a que facilmente se caia na armadilha de escrever com ar de grande certeza acerca de coisas ou realidades que se desconhecem.

O resultado é, muitas vezes, aquilo que o diretor da revista de áudio americana Stereophile, John Atkinson, chama de review in the box: análise a um produto feita exclusivamente a partir das especificações técnicas, sem que o mesmo sequer saia da caixa, passando no entanto a ideia de que se experimentou o artigo.

O problema é que grande parte do público recorre a análises e críticas especializadas para as suas decisões de compra. E ainda que a imensidão de publicações sobre tecnologia que existem na internet (especialmente em língua inglesa) torne difícil perceber em quem afinal confiar, há algumas ideias que todos nós, enquanto leitores, devemos ter presentes perante este tipo de artigos.

Logo em primeiro lugar, devemos evitar cair num processo de confiança por mero respeito à autoridade, seja do autor em causa ou da publicação em que escreve. Não apenas toda a gente se engana de vez em quando como - e isto é o mais importante -, quando se trata de crítica de produtos, o que é ótimo para a pessoa A pode ser meramente médio para a B. E apesar de a experiência de vida do crítico lhe dar um background possivelmente maior do que o dos seus leitores, ele é meramente um mamífero bípede com o mesmo número de neurónios do que qualquer outra pessoa.

Depois, obviamente, há que ter em conta onde está o texto publicado. Por exemplo, não é expectável encontrar críticas negativas a qualquer iPhone num site chamada 9 to 5 Apple. Noutra vertente, também não devemos acreditar em tudo o que lemos no blogue MacRumors só porque o seu nome dá a entender que ali existe alguma inside information sobre o que se passa nos laboratórios de Cupertino (famosos mesmo pelo secretismo quase paranoico relativamente aos seus futuros produtos).

Por fim, convém tanto quanto possível perceber de onde vem a informação que está a ser lida. Na selva de blogues e redes sociais o que mais se encontra são artigos com informações em segunda, terceira ou quarta mão. E não é complicado detetar a sua origem. A maioria das vezes, uma simples pesquisa num motor de busca revela onde o autor está a ir buscar as informações.

Tudo isto dá um pouco de trabalho, é certo, mas vale bem a pena fazê-lo se queremos ter alguma garantia de que tomamos decisões baseadas na melhor informação possível. Porque os jornalistas de tecnologia não são, por norma, estúpidos, mas muitas vezes (mesmo sem querer) escrevem coisas estúpidas.

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