Diz que o mundo acabou ontem. Não deu por isso?

Ao longo desta semana foi praticamente impossível não cruzar, nos media americanos e britânicos, com mais uma "notícia" de que o mundo tinha (outra vez) data para acabar. Era para ser ontem, 23 de setembro de 2017.

O racional (!!) por trás da coisa é irrelevante (tem que ver com um "numerologista" cristão americano que responde pelo nome de David Meade, que fala de um planeta nómada chamado X e umas suas supostas contas baseadas nas alegadas profecias do Livro do Apocalipse, da Bíblia, que dizem que o astro ia aparecer no Sistema Solar e dar cabo disto tudo). Merecedor de reflexão é o facto de, quase no fim da segunda década do século XXI, continuarmos a dar atenção a esta gente e às suas ideias idiotas, que não deveriam merecer mais do que o nosso riso coletivo ou, para os mais caridosos, alguma pena ou compaixão.

No entanto, os "novos meios" de comunicação conseguem propalar de uma forma até agora impensável estas (e outras) ideias, tanto pela simples replicação dos utilizadores de redes sociais como pela cumplicidade dos media tradicionais, que vão atrás.

Quanto a estes últimos, ainda que tenhamos de aceitar que tentem encontrar um título que chame a atenção de forma a atrair leitores (como o deste texto, se funcionar...), não podemos dar de barato que a "missão de informar" do jornalista se fique por replicar os devaneios de alguém. Contudo, tanto a Fox News como o Huffington Post, só para dar dois exemplos, optaram por contar a história escrevendo apenas, algures pelo meio, uma frase tipo "a NASA nega que o planeta X exista".

Trabalho menos mau fizeram meios como os britânicos Independent ou Telegraph, que ocuparam espaço a explicar por que razão a coisa é um disparate - no caso deste último, tentaram perceber como é possível estas "notícias" terem impacto global.

O que nos leva à questão de como veem o mundo os utilizadores das redes sociais - no fundo, praticamente todos nós.

Deixemos para já de lado as habituais teorias da conspiração, as fake news, as meias verdades, as mensagens de ódio e os vídeos de gatinhos - acho que cobri pelo menos um terço de todo o tráfego online. Foquemo-nos em questões ainda mais básicas: a mais elementar perceção do mundo que nos rodeia.

É aceitável que, em 2017, se continue comummente a falar dos "cinco elementos" da natureza? Que perpetuemos a ideia de que o ser humano tem "cinco sentidos? Afinal, que educação damos aos nossos filhos se eles saem do ensino obrigatório sem saberem distinguir um eletrão de um protão e provavelmente nunca ouviram falar em quarks ou neutrinos? Têm dificuldade em compreender que na realidade o nosso Sol é apenas uma estrela (relativamente comum) numa galáxia com mais de 200 mil milhões de outras, num universo observável de outras tantas galáxias; que o cosmos não existe para nós, antes pelo contrário, na melhor das hipóteses (e parafraseando Carl Sagan), é completamente indiferente quanto ao que nos acontece.

Tivesse já o ser humano conseguido educar os seus descendentes para valorizarem a razão face aos instintos raquidianos; a ciência face à superstição; a procura do conhecimento face ao dogma e a humanidade saberia preservar a vida, compreender o universo que a rodeia e tomar decisões informadas.

Não haveria David Meades, nem flat earthers (os que dizem que a Terra é plana), nem movimentos antivacinas. Nem Donald Trumps, Putins, Hitlers ou Estalines. Duvida? Até nisto o método científico pode ajudar: só experimentando é que poderíamos saber.