Cavernas na Lua: tal como Kubrick e Clarke previram

A descoberta, esta semana, de uma enorme caverna sob o solo lunar é um sonho da ficção científica tornado realidade.

Ou melhor, é a concretização de algo teorizado há muito por cientistas e usado na boa ficção.

Com mais de 50 quilómetros de comprimento e uma largura média de 100 metros, a caverna agora descoberta pela sonda japonesa Selene será um tubo de lava, de uma era em que o nosso satélite foi vulcanicamente ativo.

É difícil sublinhar a importância da descoberta para o futuro espacial da humanidade. Um dos maiores desafios que os cientistas enfrentam na conceção e preparação de missões tripuladas ao "espaço profundo" é a proteção dos seres humanos das radiações. Desde os ultravioletas do Sol aos raios cósmicos, a radioatividade provoca mutações genéticas (como o cancro) nos seres vivos ou, em doses elevadas, é mesmo capaz de tornar a vida impossível

Na superfície do nosso planeta, a atmosfera (a camada de ozono) e o campo magnético terrestre protegem-nos. Mesmo em órbita baixa, como aquela em que se encontra a Estação Espacial Internacional, o campo magnético da Terra é ainda suficientemente forte para defletir a maioria das partículas nocivas.

"Lá fora", no entanto, há que encontrar soluções de proteção. Assim, para poder construir bases permanentes na Lua ou em Marte, por exemplo, teremos de primeiro solucionar este problema.

Uma solução é enterrar os habitats. O solo é um eficaz (e natural) escudo antirradiação. Mas só o hipotético custo do transporte de equipamento pesado para escavar estruturas subterrâneas na Lua ou em Marte torna a ideia praticamente inviável. Já só ter de adaptar uma estrutura preexistente seria muito mais fácil.

A caverna agora descoberta pode ser isso mesmo.

A exploração espacial pela humanidade passa, inevitavelmente, pela Lua. O nosso satélite, com apenas um sexto da gravidade da Terra, pode ser a plataforma de lançamento por excelência de qualquer missão a outros planetas. Isto já para não referir os recursos minerais que poderemos de lá extrair.

Criar bases habitadas em permanência no nosso vizinho é assim quase uma necessidade para podermos, um dia, sair do berço terrestre.

A ideia é velha de há mais de um século. E já a vimos e lemos em centenas de obras de ficção científica. Mas nenhuma a captou de forma tão realista como o filme de Stanley Kubrick e Arthur C. Clarke 2001: Odisseia no Espaço. Aqui, é-nos mostrada a base lunar Clavius, subterrânea, onde o Homem vive protegido do exterior como se estivesse na Terra.

Há 50 anos, quando o filme foi feito, parecia lógico que no virar do milénio já tivéssemos gente a viver na Lua. E não era ingenuidade dos seus criadores. O próprio Clarke (já aqui o escrevi) estimou que toda a tecnologia presente no filme tivesse um custo inferior à despesa americana na Guerra do Vietname.

Só que Clarke teve uma grande falha na sua capacidade de previsão de futuro. Não foi a existência do Monolito nem do "portal interestelar" que David Bowman atravessa na parte final - quem sabe se um dia não damos com algo parecido. O que ele menosprezou foi a incapacidade humana de investir a longo prazo no seu próprio futuro.

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