A Google faz o que quer da internet. E nós deixamos

O browser Chrome - o navegador mais utilizado no mundo, com um share de cerca de 60% - começou esta quinta -feira a bloquear as publicidades mais intrusivas. A Google, a dona do programa e a empresa que quer ser sinónimo de internet, diz que esta é uma forma de combater os anúncios que não respeitam as boas práticas. E, ainda que a medida tenha um efeito aparentemente positivo para o utilizador, é a demonstração de como, para estarmos na net, ficamos à sua mercê.

É um facto por demais evidente que a publicidade online tem muitos problemas. Na tentativa de captar segundos de atenção, usam-se técnicas muito intrusivas, algumas capazes mesmo de fazer um inferno de qualquer normal navegação na internet. Uma vez que a web como a conhecemos não seria possível sem as receitas de publicidade, é de facto premente criar soluções, standards, para os anunciantes e as suas plataformas de distribuição, que tanto possibilitem a eficácia dos anúncios como protejam os direitos dos utilizadores.

É mais ou menos isto que a Coalition for Better Ads (betterads.org) afirma querer fazer, através da chamada autorregulação. A organização reúne algumas das maiores multinacionais do mundo, de áreas tão diferentes como os bens de consumo (Unilever, Procter & Gamble), a comunicação social (Washington Post, Reuters) ou a tecnologia (Microsoft, Facebook). A Google é um dos seus membros fundadores.

Agora, todos os anúncios que não cumpram os critérios estabelecidos pela Better Ads (betterads.org/standards) serão bloqueados pelo Chrome.

Publicidade em pop ups, vídeos de arranque automático com som, anúncios com temporizador (que não permite prosseguir ou visualizar o conteúdo até passar um determinado tempo) estão entre os que deixarão de aparecer durante a navegação no PC. Em mobile (o sistema Android, igualmente da Google, tem mais de 80% do mercado e o Chrome é o seu browser predefinido), passam a ser "proibidos" os anúncios que obrigam a scrolls intermináveis ou os que piscam no ecrã, por exemplo.

O mundo da internet só ficará de facto melhor sem este tipo de coisas. Mas convém não esquecer que a mesma Google fundadora da Better Ads é também plataforma de distribuição de publicidade. E que praticamente todo o seu rendimento (a Alphabet, a empresa mãe, declarou 32,32 mil milhões de dólares de lucro no último trimestre do ano passado) provém dos anúncios que coloca nos seus sites (motor de busca, YouTube...) e nos sites de outras empresas e pessoas.

A Google promete que comunicará aos anunciantes e/ou às plataformas que não estejam a cumprir as regras, dando-lhes 30 dias para mudar. O bloqueio, se de facto se concretizar, apanhará todos os anúncios no site em questão - incluindo os que vierem via GoogleAds.

Desta forma, a empresa parece ficar protegida de críticas. Afinal, os seus próprios anúncios poderão ser afetados pela medida. Mas num mercado em que as receitas de publicidade mal chegam (mais correto: não chegam) para os gastos de muitos produtores de conteúdos - incluindo alguns dos maiores jornais do mundo - a simples ameaça de vir a perder o que atualmente têm é motivo de preocupação. E, por acaso (inserir ironia), até pode ser uma bela motivação para que aumentem o peso dos anúncios vindos da Google, que se encarregará de garantir que passam os critérios...

Conclusão: a empresa que foi determinante a estabelecer os critérios de como deve ser a publicidade online usa o facto de possuir o browser mais utilizado do mundo para ameaçar outras empresas (que lhe fazem concorrência, enquanto promotora de publicidade), com a provável consequência de pelo caminho obter mais espaços para pôr os seus anúncios. Uma jogada genial - dirá um acionista, com certeza.

Exclusivos

Premium

Ferreira Fernandes

A angústia de um espanhol no momento do referendo

Fernando Rosales, vou começar a inventá-lo, nasceu em Saucelle, numa margem do rio Douro. Se fosse na outra, seria português. Assim, é espanhol. Prossigo a invenção, verdadeira: era garoto, os seus pais levaram-no de férias a Barcelona. Foram ver um parque. Logo ficou com um daqueles nomes que se transformam no trenó Rosebud das nossas vidas: Parque Güell. Na verdade, saberia só mais tarde, era Barcelona, toda ela.

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

Dos pobres também reza a história

Já era tempo de a humanidade começar a atuar sem ideias preconcebidas sobre como erradicar a pobreza. A atribuição do Prémio Nobel da Economia esta semana a Esther Duflo, ao seu marido Abhijit Vinaayak Banerjee e a Michael Kremer, pela sua abordagem para reduzir a pobreza global, parece indicar que estamos finalmente nesse caminho. Logo à partida, esta escolha reforça a noção de que a pobreza é mesmo um problema global e que deve ser assumido como tal. Em seguida, ilustra a validade do experimentalismo na abordagem que se quer cada vez mais científica às questões económico-sociais. Por último, pela análise que os laureados têm feito de questões específicas e precisas, temos a demonstração da importância das políticas económico-financeiras orientadas para as pessoas.

Premium

Marisa Matias

A invasão ainda não acabou

Há uma semana fomos confrontados com a invasão de territórios curdos no norte da Síria por parte de forças militares turcas. Os Estados Unidos retiraram as suas tropas, na sequência da inenarrável declaração de Trump sobre a falta de apoio dos curdos na Normandia, e as populações de Rojava viram-se, uma vez mais, sob ataque. As tentativas sucessivas de genocídio e de eliminação cultural do povo curdo por parte da Turquia não é, infelizmente, uma novidade, mas não é por repetir-se que se deve naturalizar e abandonar as nossas preocupações.