A globalização que terminou em barbárie

Era uma vez um mundo onde bancos e empresas cada vez maiores, tirando partido das novas tecnologias e da liberalização das trocas entre países, conduziram as economias nacionais a uma profunda integração global. Este processo trouxe riqueza para alguns e pobreza para outros. Acima de tudo trouxe instabilidade, desigualdades e mudanças sentidas como excessivas por grande parte das pessoas. As populações começaram a questionar os políticos de sempre e a acolher discursos de ruptura. Em vários países começaram a chegar ao poder movimentos e indivíduos autoritários e agressivos. O mundo acabou afundado em guerras, morte e repressão. Isto não é uma previsão - é uma lição da história que nos chama a atenção para os riscos da era em que vivemos.

Não é a primeira vez na história que o mundo vive um período de globalização económica profunda. No último quartel do século XIX o grau de integração das economias era, a vários níveis, idêntico ao actual; segundo algumas medidas era até maior. As mercadorias e os capitais circulavam pelos cinco continentes e, mais do que hoje, milhões de pessoas mudavam de país quase sem restrições.

Tal como hoje, os principais actores da globalização económica do final do século XIX eram grandes bancos e empresas multinacionais, que realizavam investimentos e conduziam operações em vários países em simultâneo. Para tal tiravam partido de novas tecnologias de comunicação e transportes (à época, o telégrafo, o barco a vapor e o caminho-de-ferro), bem como da decisão dos governos nacionais de liberalizar as trocas entre países.

Tal como o mundo actual, o final do século XIX foi marcado por acordos de comércio livre que rapidamente se expandiram a todo o mundo, por vezes por imposição dos países mais fortes sobre os menos poderosos. Vários governos decidiram aderir ao padrão-ouro como forma de atrair investidores internacionais - o mesmo fizeram nas últimas décadas, com igual propósito, vários países que fixaram o valor das suas moedas ao do dólar americano ou aderiram ao euro.

Tal como no mundo contemporâneo, a globalização das economias e a decisão dos governos de colocarem os instrumentos de política económica ao serviço da atracção de capitais começaram a criar problemas cada vez maiores ao funcionamento dos sistemas políticos.

Se é verdade que a integração económica pode trazer prosperidade global, não o é menos que a distribuição de ganhos e perdas nāo é homogénea entre países, nem dentro de cada país. Então, tal como hoje, os fluxos massivos de capital arrastaram vários países para crises financeiras devastadoras, com custos distribuídos assimetricamente entre a população.

Nas vésperas da passagem entre os séculos XIX e XX, depois de quase duas décadas de recessão, de vários colapsos financeiros e de resgates humilhantes impostos a países soberanos, as economias voltaram a crescer graças a uma enorme injecção de liquidez no sistema de trocas (na altura, impulsionada pela descoberta de novas jazidas de ouro de grandes proporções).

Assim, o século XX começou com muitos países a atingir níveis de bem-estar económico nunca vistos. Mas as marcas da instabilidade, das desigualdades e das humilhações nacionais nāo desapareceram. A desestruturação dos sistemas políticos cresceu. Em breve o mundo conheceria a sua primeira guerra mundial, a qual criaria condições para a maior crise económica mundial da era moderna, para a ocorrência de grandes revoluções, para a emergência de regimes autoritários e para uma nova guerra de dimensões globais.

Os paralelos entre a globalização do final do século XIX e o momento actual são demasiado evidentes. Não é certo que tudo se vá repetir - nada se repete da mesma forma - mas vale a pena reter algumas lições da história.

Os apoiantes incondicionais da globalização devem ter bem presente que a integração das economias nacionais é um dos processos mais violentos por que as sociedades podem passar, que nunca deixa incólumes os sistemas políticos. Os que acreditam que a bonança moderada que actualmente se vive vai diluir os riscos para a democracia devem perceber que o estímulo proporcionado na última década pela injecção de liquidez conduzida pelos bancos centrais em nada altera os factores de instabilidade e desigualdade que desestruturam as sociedades contemporâneas. E quem subvaloriza os riscos políticos das derivas populistas autoritárias que têm vindo a propagar-se melhor faria em perceber que nenhum povo aceita de bom grado deixar as suas vidas nas mãos dos "mercados". Se não houver no campo democrático quem se proponha refrear o fundamentalismo dos mercados mundiais não faltará quem o faça vindo dos lados mais negros que existem nas nossas sociedades.

Economista e Professor do ISCTE-IUL. O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

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