Vítimas do crime já provado no caso Sócrates

Sócrates está preso preventivamente há três meses. É uma felicidade para o país ver desativado da vida política alguém que gere as suas finanças pessoais da forma como ele próprio descreve: a admissão dos seus empréstimos para cobrir despesas, legítimas mas obviamente imprudentes, são o pior sinal que um político pode dar sobre o seu comportamento na gestão dos dinheiros públicos.

O antigo primeiro-ministro é um criminoso? Não sei. Das acusações de fraude fiscal, branqueamento de capitais e corrupção que justificaram a detenção percebemos, no meio da confusão noticiosa, que estarão em causa quantias entre 600 mil e 23 milhões de euros, o que só por si é um mundo de diferença. Terei, como todos nós, de esperar para ver se realmente houve atividade criminosa (e de que tipo), negócios legítimos ou, tão-só, uma ridícula e triste mania das grandezas.

Não há é dúvidas sobre a existência, repetida, do crime de violação de segredo de justiça cometido por gente ligada à investigação.

Esse crime fere naturalmente a reputação dos primeiros arguidos: Sócrates, Carlos Santos Silva, João Perna e Gonçalo Trindade Ferreira.

Gestores e trabalhadores de empresas supostamente corruptoras têm igualmente o carimbo público da suspeita: o Grupo Lena, a Octapharma, a Dynamicspharma e o seu dirigente, Lalanda de Castro.

Cinco mulheres relacionadas com o preso 44 (Sofia Fava, a mãe dos filhos de Sócrates; uma suposta condessa de nome Alexandra; uma antiga secretária de Guterres e outras duas pessoas cujos nomes, inevitavelmente, aparecerão) foram também entregues ao coliseu da opinião pública.

A lista de gente conspurcada pelo caso atinge ex-governantes do PS, deputados, jornalistas, gestores e advogados. Mais, muitos mais irão juntar-se à já longa fila.

No fim, daqui a seis ou sete anos, talvez sejam condenadas (se forem) cinco ou seis pessoas de toda esta multidão entregue ao tribunal popular. A maior parte delas, sob indiferença generalizada, será gravemente penalizada por isso, terá problemas nas suas empresas, no seu emprego, nas suas relações pessoais - mesmo sem terem nada a ver com o assunto.

Culpo os jornais por isso? Não. Se me entregassem tais informações teria de as publicar. Culpo a existência do segredo de justiça, pois, como todos os sigilos, dá armas a quem tem informação secreta para manipular a sociedade. A investigação criminal em Portugal fá-lo, desde sempre, sem consequências.

O bem que o segredo de justiça tenta proteger tem, há décadas, como se prova diariamente pela simples leitura da imprensa, um valor muito inferior ao mal que a sua existência provoca. Acabe-se com ele, de vez e a sério.

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