Vamos para a guerra mas não vamos ganhar

Os romanos, donos da civilização mais avançada do seu tempo, que impuseram nos territórios à volta do Mediterrâneo uma paz armada, imperial, nunca perceberam os bárbaros. Nem a sua língua, nem a sua cultura, nem a sua moral, nem a sua economia, nem a sua forma de combater.

Apesar de terem o exército mais formidável e as maiores riquezas do planeta, os romanos nunca conseguiram destruir, assimilar ou comprar os bárbaros. Em 150 anos de sucessivas invasões e imigrações, a civilização romana ganhou inúmeras batalhas aos godos mas acabou por perder, paulatinamente, a guerra. Dessa derrota nasceu uma série de reinos germânicos, o feudalismo, a Europa cristã, a segunda infância desta atual civilização, autodeclarada "superior".

Chamamos agora, como Durão Barroso ontem fez, "bárbaro" ao califado do Estado Islâmico e colocamo-nos, 1600 anos depois, involuntariamente, na posição dos romanos: cheios de superioridade moral, filosófica, ideológica, económica e técnica, mas incapazes de dominar a besta ignorante e atrasada que nos ataca, diretamente ao coração, quando envia suicidas a Paris para se fazerem explodir no meio de multidões.

Vamos para a guerra ao Estado Islâmico. Estamos, aliás, desde os anos 90, já na fase pós-colonial, em vários pontos do globo, numa permanente guerra europeia e norte-americana contra diversas variantes de fanatismos religiosos islâmicos.

Neste último quarto de século, com toda a nossa superioridade, vencemos muitas batalhas. Apesar disso, não vemos maneira de ganhar a guerra aos "bárbaros".

Vamos ganhar ao Estado Islâmico na frente Síria. É certo. Talvez eliminemos o Daesh. Mas a médio prazo não vamos eliminar o fanatismo que renascerá, outra vez revigorado, noutro ponto do globo. Nessa altura, obrigada a nova batalha sangrenta, como estará a nossa civilização "superior": mais forte ou, pelo contrário, mais enfraquecida?

Como estarão, depois de vencer a batalha ao Estado Islâmico, a liberdade e a tolerância? A justiça social e a economia? A paz e a segurança? A democracia e a Europa?

Para vencer esta guerra temos de ser melhores militarmente, policialmente, diplomaticamente, na espionagem, no direito, na imigração, na inclusão, na repressão, na educação, na propaganda, na teologia, na economia, na justiça social. Temos de deixar de falar em "nós" e em "eles", para conseguirmos, um dia, sermos todos "nós". Temos, antes do mais, de perceber os "bárbaros", começando por encontrar uma explicação honesta para o facto de cinco a seis mil militantes do terrorismo do califado serem pessoas nascidas e criadas na nossa civilização "superior". Só assim não cairemos num precipício decadente, ao estilo romano.

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