Tristes e solidários mas vão morrer longe, OK?

1. Ouvi durante todo o dia uma série de banalidades condoídas sobre a tragédia no Mediterrâneo, às portas de Itália, a somar pelo menos 700 mortos à lista quase diária de imigrantes africanos que se afogaram a tentar entrar na Europa. Palavras tristes, do fundo do coração. Despertaram em mim, porém, a necessidade de retribuir com outras banalidades, temperadas pela autenticidade de um sentimento também humano e genuíno: raiva.

Esta emoção foi-me dada pelas palavras, à TSF, do, até há meses, presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso. Depois de expressar tristeza e solidariedade, belos sentimentos, o português que liderou durante dez anos a Europa atirou toda a responsabilidade pela incapacidade em salvar estas hordas de desesperados aos países onde elas desembarcam à procura de ganhar uma vida, depois de desafiarem a morte no mar.

"Quando a agência europeia Frontex começou a trabalhar só tinha 60 pessoas. É menos do que uma esquadra de polícia em Paris", queixou-se Durão para, a seguir, concluir: "Como é que se pode responder aos problemas da imigração ilegal e clandestina com esse número de pessoas?"

Isto para mim diz o seguinte: "Não vamos falar das responsabilidades europeias pelo que se passa na Síria ou na Líbia, ignoremos décadas de achas mandadas para a fogueira no Médio Oriente ou inúmeros massacres em África acionados por mão escondida do Ocidente. Ignoremos toda a história do pós-guerra e a que se escreveu nos últimos anos. Não falemos do que fazemos cá dentro aos imigrantes. O que é preciso é fortalecer o Frontex. É preciso é controlar as águas do mar e devolvê-los à procedência, limpos, secos e com uma injeção contra a malária. Temos muita pena, sinceramente, mas, se fizerem favor, como é costume, vão mas é morrer longe."... Que raiva!

2. São muito justas todas as homenagens ao malogrado jornalista Tolentino da Nóbrega pelo trabalho corajoso que fez para o Público na Madeira jardinista. Há até um abaixo-assinado a propô-lo para a Ordem da Liberdade... Certo. Espanta-me é toda esta gente andar a disputar há semanas o Prémio Pulitzer da elegia fúnebre sem dizer uma simples palavra de agradecimento aos vivos que fizeram e fazem com que haja jornalismo decente na Madeira.

Ainda houve, vá lá, quem lembrasse Lília Bernardes, durante 23 anos repórter, com mérito, para o Diário de Notícias. Penso, sobretudo, nos jornalistas do Diário de Notícias da Madeira, vencedores de dificuldades ainda maiores que as dos correspondentes do continente, liderados por Ricardo Oliveira na missão quotidiana de dignificarem a sua profissão... Também eles estão longe de nós, não é?

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