O Portugal legislado por Paula Teixeira da Cruz

Ernesto mostrou a convocatória à funcionária: "a senhora diretora chamou-me para uma reunião", informou. "Ah, estava convencida que não aparecia...", respondeu-lhe ela, expressão vaga, a desviar o olhar para a criança encostada ao braço direito do pai.

Atravessaram o pátio da escola. Era a hora dos pais irem buscar os miúdos. Cândida viu Júlia, a melhor amiga e, excitada, gritou-lhe: "Júlia, ó Júlia! Hoje foi o meu pai que veio!" Mas a mãe de Júlia puxou-a pela mão, apressada em direção ao portão de saída, ao mesmo tempo que soltava para o ar : "Não fales com esse homem... Que nojo!"

Ernesto viu-as afastarem-se, confundido, mas desviou o pensamento ao chegar à porta do gabinete da diretora. Pediram-lhe para deixar Júlia lá fora: "a dona Rosa toma conta dela" comandou Vitória.

Sozinho com a diretora ouviu um longo discurso sobre a obrigação que a escola tinha de proteger as crianças, do dever de ouvir as preocupações dos pais, a responsabilidade social dos educadores...

Ernesto apressou-a: "doutora Vitória, mas em concreto, diga-me, em que posso ajudar ? Há algum problema com a minha filha?..."

Vitória suspirou e encheu-se de coragem: "O senhor Ernesto já teve problemas com a lei?" "Não", respondeu ele, desconfiado. Ela, a fixar os olhos nos dele, atirou: "desculpe mas tenho de perguntar se não foi condenado por pedofilia? Não está na lista da PSP?"...

Ernesto recordou a cara da mãe de Júlia a soltar o "que nojo!"; a auxiliar a sibilar "estava convencida que não aparecia..."; a reunião de condóminos da véspera e a agressividade incompreensível dos vizinhos; a explicação para, de há uns dias para cá, vários deles virarem-lhe a cara quando se cruzavam; o silêncio repentino e os olhares fixos no café do bairro... "Isso é totalmente mentira!", alegou, enquanto sentia o rosto ruborizar. "Quem lhe disse isso?"

Houve uma carta anónima, alguns pais falaram disso, era boato generalizado no bairro... Ernesto ouvia a professora e pensava: teria sido a ex-mulher deprimida pelo divórcio? O Silva por ter perdido para ele a promoção? A madrasta por causa da herança do pai?...

"Acha que a polícia lhe dá uma declaração a dizer que não está na lista? É que, na verdade, não há nenhum pai que diga que foi ver a lista nem alguém que se ofereça para pedir a consulta." Vitória mostrou-lhe assim o futuro: iam ser anos a lidar com isto. Mesmo se tivesse ajuda das autoridades, dos tribunais, nunca conseguiria ser visto como um verdadeiro inocente.

A vida naquela comunidade tinha acabado para ele. Teria de mudar de terra, de emprego. Teria (e vieram-lhe lágrimas aos olhos) de sair daquela sala e explicar o inexplicável à filha de 8 anos, a pequena e feliz Cândida...

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