O PCP pode apoiar Nicolás Maduro?

Jesus Cristo rodeado por soldados de todas as épocas, dos gregos de Alexandre aos militares de Bush no Iraque, ajoelhados, ensanguentados, extasiados. É um quadro de Jon McNaughton, conhecido nos Estados Unidos como o "pintor do Tea Party", da extrema--direita. Este mórmon defende que os políticos de esquerda, os jornalistas, os advogados, os artistas de Hollywood e os professores que ensinam a Origem das Espécies de Charles Darwin estão ao serviço de Satã, que destrói os Estados Unidos. O quadro chama-se A Paz Está a Chegar e foi a imagem afixada no Instagram por Óscar Pérez, oficial/ator de olho azul, empinado e gongórico, quando se meteu num helicóptero para disparar sobre o Supremo Tribunal da Venezuela.

Espanto-me por tantos colunistas portugueses exigirem a queda do regime de Nicolás Maduro sem olharem, um segundo, para a alternativa que está a ser fervida nas manifestações de rua, onde se mistura o banditismo, o golpismo e uma espécie de neofascismo sul-americano com, por outro lado, uma genuína revolta da população urbana contra a prepotência, a corrupção e a incompetência do governo.

Desse caldo contraditório o nascimento de uma democracia é uma probabilidade quase nula: o país arrisca-se antes a uma guerra civil brutal para viabilizar a instauração de uma verdadeira ditadura sanguinária (que o atual regime venezuelano, apesar dos seus defeitos, não é), com a economia entregue a quem financia os atuais "combatentes pela liberdade"...

Escreveu João Miguel Tavares, no sábado, que "somos todos demasiado complacentes com o PCP" por causa de um ato de solidariedade com Nicolás Maduro.

Tenho a dizer que eu próprio, militante do PCP, não sou capaz de manifestar solidariedade com o governo da Venezuela: qualquer regime que se suporta no culto da personalidade, com abuso da autoridade, burocratizado e corrupto, não merece o meu apoio.

Mas a verdade é que, do outro lado, quem lidera o processo de revolta merece é ser combatido e com determinação - ainda há alguns dias um deputado oposicionista, Juan Requesens, foi a uma universidade em Miami, EUA, dizer que, "para chegar a uma intervenção estrangeira, temos de passar por esta etapa" de agudização dos confrontos nas ruas: "Se conseguirmos gerar o clima de ingovernabilidade que pretendemos, encurtamos o caminho à ditadura", disse... é deste banho de sangue, consciente, frio e organizado que querem ser cúmplices?

O PCP, parece, é solidário com Nicolás Maduro. Pois não ganha nada com isso, só críticas e insultos. Já a Goldman Sachs, de Durão Barroso, ganhou com isso quando, há um mês, comprou a Nicolás Maduro 865 milhões de dólares em obrigações do Banco Central da Venezuela. Já Paulo Portas, há um par de anos, ganhou com isso uns negócios para empresas portuguesas quando Maduro lhe chamou, frente a uma plateia em aplauso, "amigo da Venezuela" retribuindo o "amigo de Portugal" com que Portas homenageara a memória do antecessor do presidente da Venezuela, Hugo Chávez. Já José Sócrates, antes disso, ganhou também com isso quando "vendeu" a Hugo Chávez o computador Magalhães mais uma enorme encomenda de obras públicas a empresas portuguesas.

João Miguel Tavares acha que é "uma obrigação moral" denunciar o apoio do PCP a Maduro. Acontece que o PCP, mesmo errando, tem moral para o fazer: afinal é a única organização política portuguesa que, ao manifestar apoio a Maduro, não se está a aproveitar financeiramente dos venezuelanos. E, em relação a esses que o fizeram, João Miguel Tavares e todos os moralistas do regime têm sido demasiado complacentes.

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