O PCP não sabe fazer propaganda?

O PCP odeia o culto da personalidade. O medo de cair no erro político do culto da personalidade tem duas origens: a forma como, ao longo de quase um século de história, o Partido Comunista Português educou a sua prática de fazer política e a forma como interpretou os erros e os crimes dos países do bloco soviético, que levaram à desagregação da experiência socialista no Leste europeu (*).

O medo do culto da personalidade molda o formato de propaganda do PCP e, por consequência, estrutura a propaganda da CDU, a coligação partidária com os Verdes com que o PCP concorre a eleições.

Dou um exemplo concreto: ao longo de décadas de intenso combate político, o Partido Comunista Português produziu milhares de cartazes de propaganda. Pois dou um doce a quem me apresente um cartaz de apelo ao voto no PCP, numas legislativas, com a fotografia de Álvaro Cunhal. Se houver um é, quase de certeza, apócrifo ou feito à revelia do próprio dirigente histórico do partido.

Durante muitos anos os únicos cartazes eleitorais do PCP com fotografias individuais de candidatos eram os das eleições presidenciais, dada a natureza nominal da eleição. Mesmo para as autárquicas, a preferência ia para cartazes com letras, composições gráficas abstratas, desenhos, foices, martelos e fotografias de multidões, de trabalhadores, operários, camponeses ou de grupos de candidatos. Só bastante tarde se tornou banal a utilização de cartazes com a fotografia do candidato a presidente de câmara.

Lembro-me, aliás, da polémica no interior do PCP quando, em 1989, para as eleições europeias, a CDU apresentou um cartaz com uma fotografia de Carlos Carvalhas. Lembro-me como isso motivou debates e lembro-me como, a custo, lá se aprovou o princípio político da admissibilidade da utilização, parcimoniosa, de cartazes de propaganda com fotografias individuais de cabeças-de-lista.

Ainda hoje a CDU, nas eleições europeias, puxa habitualmente pela fotografia do seu cabeça-de-lista, como aconteceu agora com João Ferreira, mas para as legislativas não é propriamente elevada a quantidade de cartazes com a fotografia do secretário-geral, Jerónimo de Sousa, diria que é mesmo excecional.

Nos círculos eleitorais distritais para as eleições à Assembleia da República, às vezes, aparecem cartazes com os cabeças de lista da CDU, mas não são os dominantes, o que domina é a repetição massiva do logótipo da coligação.

A propaganda do PCP suportou-se sempre num trabalho contínuo de distribuição de informação porta a porta, fábrica a fábrica, escritório a escritório; numa promoção constante de debates temáticos por todo o país; numa procura de contacto direto com populações.

Mas a atomização da vida laboral, as dificuldades da vida urbana, a desertificação do interior, as diminuições de funcionários no partido tornam cada vez menos eficaz esse processo de propaganda - é mais difícil ir ter com as pessoas aos locais habituais, porque elas ou não estão lá ou não têm tempo para lá estar.

Quando o PCP explica as suas derrotas eleitorais, como a do passado fim-de-semana, faz sempre um enquadramento das circunstâncias políticas que as motivaram e queixa-se, quase sempre com razão, da desigualdade de tratamento na comunicação social.

No debate interno das próximas semanas tenho a certeza que o PCP vai tentar analisar os motivos de fundo da sua erosão eleitoral e discutir, por exemplo, se vale a pena, depois das legislativas, pensar em manter qualquer tipo de aliança com o PS ou se o conteúdo politico de cariz ecológico da CDU é adequado.

Mas tenho dúvidas que o PCP discuta com profundidade o problema que defronta com a eficácia da sua propaganda. E, no entanto, ele é evidente.

Por exemplo, visito páginas de Facebook e conto números de seguidores.

PS: 77 184 pessoas.

PSD: 146 734.

Bloco (Esquerda.net): 76 163.

CDS-PP: 33 945.

PAN: 156 170.

A página do PCP é seguida apenas por 14 500 pessoas, a dos Verdes por 11 114 e a da CDU por 13 981, valores muito abaixo dos que são alcançados pelos adversários e por um partido ainda pequeno como o PAN.

Se comparar as páginas pessoais dos candidatos às europeias, as diferenças são semelhantes ou piores: basta comparar os 98 848 seguidores de Marisa Matias com os 7 083 de João Ferreira

Mesmo qualitativamente, a mensagem passada nestas páginas de facebook é muito diferente.

Veja-se o início da última mensagem de Marisa Matias: "Ontem foi uma longa noite. Ontem devia ter-me deitado mais cedo porque hoje tinha de regressar a Bruxelas, mas deitei-me estupidamente tarde porque sou uma optimista e queria mesmo ver até ao último voto. A hipótese de eleger o Sérgio Aires, que antes parecia impossível, passou a ser uma urgência na minha cabeça..."

Há muito "eu", muito "emoji", muito individuo, muita paixão, muita falsa intimidade nas mensagens dos políticos que usam com eficácia este instrumento de propaganda. Marisa Matias sabe fazê-lo e o Bloco está-se nas tintas para a questão do culto da personalidade.

Comparo com o início da última mensagem na página pessoal de João Ferreira: "Os resultados provisórios das eleições ao Parlamento Europeu confirmam a eleição de dois deputados pela CDU - João Ferreira e Sandra Pereira. A CDU mantém uma importante representação no Parlamento Europeu elegendo dois deputados que são uma garantia sólida, coerente e de confiança na defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo e do País..."

A mensagem é impessoal, distante, infinitiva. João Ferreira não é um líder, é o representante de um coletivo chamado CDU que publica um texto em tom de comunicado partidário. Como instrumento de propaganda, a página no Facebook de João Ferreira é uma quase inutilidade.

Serve esta comparação para exemplificar as dificuldades do PCP na utilização de redes sociais. Se fosse procurar exemplos de utilização do Twiter, do WhatsApp, Instagram ou de simples SMS, os resultados seriam semelhantes.

Estas dificuldades, parece-me, não têm a ver com falta de habilidade ou de sensibilidade para estes meios de comunicação por parte de quem faz a propaganda no PCP.

O problema para os comunistas portugueses é que a utilização das redes sociais na política, para ser eficaz, implica aceitarem práticas que contrariam a sua própria maneira de pensar o mundo, a forma como acham que se deve fazer política, a maneira como se devem debater os problemas. Não é um problema formal, é de conteúdo.

Uma das contradições insanáveis para a propaganda do PCP é que estar no Facebook de forma eficaz implica, sempre, cair no culto da personalidade, quer pela valorização do indivíduo-candidato e correspondente subvalorização do coletivo partidário, quer pelo inevitável tom de adulação ao candidato que as caixas de comentários feitos por seguidores produzem.

As dificuldades com a propaganda não são a razão principal para o fracasso eleitoral de partidos enraizados no país e institucionalizados no regime como o PCP é. Mas são uma componente relevante do problema.

Como é que um partido como o PCP que, no século XX, submetido a extremas dificuldades, revelou imensa energia, inovação, e eficácia na elaboração e distribuição da sua propaganda consegue agora lidar, no século XXI, com instrumentos como as redes sociais, sem trair o seu ideário? Não sei.

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(*) Num livro de Álvaro Cunhal, que me parece muitas vezes ser subestimado, O Partido com Paredes de Vidro, de 1985, o dirigente histórico do Partido Comunista Português explica como o PCP vê o problema do culto da personalidade:

"O culto da personalidade é um fenómeno negativo que comporta inevitavelmente pesadas consequências no partido em que se verifique.

Os elogios públicos e o exagero dos méritos do dirigente objeto do culto são aspetos superficiais.

As questões de fundo são extraordinariamente mais graves.

São as incompreensões e a supervalorização do papel do indivíduo.

É a atribuição a uma personalidade, não apenas do que lhe é devido pelos seus méritos mas do que se deve aos méritos de muitos outros militantes.

É o injusto apagamento da contribuição dos outros militantes, assim como da classe e das massas.

É a prática da direção individual e da sobreposição da opinião individual (mesmo que errada) à do coletivo.

É a aceitação sistemática, cega, sem reflexão crítica, das opiniões e decisões do dirigente.

É a crença ou a imposição da sua infalibilidade.

É o atentismo em relação às decisões do «chefe» e a quebra da iniciativa, intervenção e criatividade das organizações e militantes.

É a falsa ideia de que as tarefas que cabem ao Partido e até à classe operária e às massas podem ser realizadas pelo dirigente objeto do culto.

É o enfraquecimento da consciência comunista e da aprendizagem e responsabilidade dos dirigentes e militantes.

É o enfraquecimento e afogamento da democracia interna nos seus variados aspectos (trabalho coletivo, regra maioritária, independência de juízo e de opinião, prestação de contas).

É o caminho quase inevitável para a intolerância, o dirigismo, a utilização de métodos administrativos e sanções em relação aos que discordem do dirigente objecto do culto, o contradigam ou se lhe oponham."

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