José António Saraiva escreveu para a História

Não vou repetir os insultos com que a opinião publicada tem mimoseado José António Saraiva pela redação do livro Eu e os Políticos: nas 260 páginas que li encontrei pelo menos seis momentos que, de facto, tornam justos os epítetos mais horríveis que se repetiram por aí mas, fechado que está o julgamento moral e ético ao indivíduo, o meu ponto é outro.

Este livro não devia ser lido, só, como uma tentativa do antigo diretor do Expresso e do Sol em ajustar umas contas. Este livro revela mais do que alguns mexericos.

Tal como no anterior Confissões de Um Director e tal como no também recentemente lançado Na Sombra da Presidência, do ex-diretor do DN, Fernando Lima (que assessorou Cavaco Silva durante uma vintena de anos), o que lemos a maior parte do tempo são descrições detalhadas de uma forma de praticar o jornalismo que parece estar incorporada como "normal" pois ninguém, no meio de tanta indignação pelos "segredos" publicados, pareceu importar-se com isso.

Segundo este entendimento da minha profissão é natural jornalistas e políticos percorrerem juntos os mais caros restaurantes de Lisboa para negociarem notícias, traficarem timings de publicação, emporcalharem reputações, congeminarem manobras, conceberem planos governamentais, ajudarem a eleger líderes partidários, interferirem noutros media.

Segundo este entendimento, é natural jornalistas irem aos palácios do poder ouvir "confidências" de presidentes e governantes, darem "conselhos" aos poderosos, aceitarem publicar notícias de veracidade duvidosa e verificação impossível, transformar palpites adivinhatórios em factos, assegurar - nos tempos difíceis - mútuos empregos e colaborações bem remuneradas.

Segundo este entendimento, é portanto natural políticos e jornalistas de topo, proclamando independência e separação de águas (é mesmo cego quem não quer ver), trabalharem juntos, horas ao telefone, para, em primeiro lugar, perpetuar o estatuto das respetivas castas e, em segundo lugar, gerir a luta entre fações que, conjunturalmente, divide essas castas.

Neste jornalismo é natural não haver povo, não haver cidadãos, não haver país, não haver nada para além do pequeno círculo palaciano. Mas também não há, como se constata, leitores de jornais fora das franjas de cada uma destas castas.

A grande maioria que não lê imprensa e prefere TV e Facebook, constato com angústia, está cheia de razão: se isto é assim há décadas, como contam, cândidos, Saraiva e Lima (dando assim, oh ironia, um real contributo para a História), porque devemos, afinal, confiar nos jornais?

Felizmente, há uma nova geração de jornalistas que me enche de esperança... Venham eles.

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