Os idiotas úteis da Autoeuropa

Um comunicado aos trabalhadores da Autoeuropa, emitido por um sindicato filiado na CGTP, levou um grupo de quadros da empresa "agindo em nome desta" a redigir um outro comunicado contra "os profissionais dos sindicatos que pretendem vir para dentro da nossa empreza discutir pontos que só a nós, colaboradores da Autoeuropa, dizem respeito, tais como o contrato, os horários, a carreira ou os salários".

António Damasceno Correia, narrador cândido desta história, detalha: "Para tornar mais credível este comunicado, que teve excelente repercussão entre os trabalhadores, foi incluído um erro na palavra "empresa" (...) que apareceu escrita com "z"."

Este relato faz parte de um trabalho de 41 páginas publicado no ano 2000 na revista académica Análise Social (ver o texto completo em http://bit.ly/2eVNHTS). Aquele antigo diretor de recursos humanos da fábrica de automóveis de Palmela conta como em 1994 a administração da Autoeuropa desenhou uma estratégia para neutralizar a ação sindical. Para isso apostou no controlo e reforço de influência da comissão de trabalhadores que ia ser eleita: "Contactou sigilosamente o diretor de cada uma das áreas para que este indicasse nomes de trabalhadores de confiança que pudessem integrar a futura estrutura."

Damasceno Correia prossegue: "A escolha de um líder para esta comissão que inspirasse a capacidade de defesa dos interesses dos restantes colegas e que, simultaneamente, revelasse à empresa as informações necessárias foi ainda o aspeto mais difícil de ultrapassar. Tudo isto acabou por ser obtido através de um convite dirigido a um membro que mostrava enorme capacidade de persuasão dos colegas e que era permeável a uma forte influência."

E, a concluir: "Foi com este dirigente da comissão de trabalhadores que a empresa estabeleceu uma entente cordiale que permitiu, na véspera dos grandes embates, conhecer antecipadamente através de uma reunião sigilosa entre ele e o diretor de Recursos Humanos, quais os pontos que seriam objeto de análise na reunião do dia seguinte e a provável maneira de os ultrapassar."

Note-se, para que não haja equívocos, que estes factos de 1994 ocorreram dois anos antes de António Chora, que tanto criticou a greve de quarta-feira passada, passar a liderar a comissão de trabalhadores da Autoeuropa.

Note-se ainda que a descrição feita pelo diretor de recursos humanos de alegada manipulação por ele próprio de um "idiota útil" na liderança da comissão de trabalhadores poderia perfeitamente ter um reverso simultaneamente verdadeiro: a de esse líder da comissão de trabalhadores relatar o caso como tendo ele próprio feito desse diretor o "idiota útil" que lhe revelava as intenções escondidas da administração...

Recordado no Facebook deste documento exemplar, contraponho-o à onda de críticas escritas nos jornais sobre a greve e do "regresso da CGTP" e "do PCP" à Autoeuropa onde se argumentava: esta é uma guerra de poder do PCP com o Bloco de Esquerda (que dominaria a comissão de trabalhadores demissionária); a greve sustenta-se em reivindicações irrazoáveis (como a de recusar só ter um fim de semana completo de seis em seis semanas!); de ir provocar perda de encomendas, deslocalização da fábrica e um cataclismo que destruirá 1% do PIB...

Tal como a escrita da palavra empresa com "z", metida no comunicado antissindicatos de 1994, para lhe dar um "ar operário", presume que os trabalhadores são uns ignorantes manipuláveis, boa parte desta argumentação presume que os responsáveis sindicais são uns doidos à procura da destruição das empresas.

Por outro lado, a administração da Autoeuropa é sempre apresentada como um elemento neutro, bem intencionado, razoável, que só quer o bem da comunidade.

Afinal, porque é que a administração da empresa sempre preferiu negociar com a comissão de trabalhadores do que com os sindicatos? Há já muitos anos Damasceno Correia respondeu a essa pergunta no seu texto na Análise Social: "O facto de ser a comissão de trabalhadores o órgão que seria privilegiado na relação com a empresa tinha também a enorme vantagem de ela nunca poder promover ou decidir o recurso à greve" que legalmente (precisamente para evitar "greves selvagens" que tanto preocupam os críticos da greve na Autoeuropa) só pode ser convocada pelos sindicatos.

Ou seja, o interesse da administração da Autoeuropa é lidar com trabalhadores que estejam, na prática, incapazes de usar a greve para fazer valer as suas reivindicações. Foi isso que construiu, sempre na legalidade e através da conspiração mais hipócrita, em 1994.

É este tipo de relações, nada saudáveis, nada transparentes, nada leais, entre empresários e trabalhadores que os críticos da greve na Autoeuropa entendem ser modelar para o país?...Caramba, o melhor é fugir daqui!

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