Estão a falar de educação? Então vejam lá se fazem isto

O primeiro-ministro António Costa deu-nos uma mensagem de Natal para proclamar uma prioridade do seu governo: a educação.

Vou passar por cima do facto de todos os primeiros-ministros que fizeram o mesmo anúncio ao longo da minha vida politicamente consciente terem acabado os seus mandatos incapazes de defenderem com convicção os supostos benefícios das medidas que aplicaram.

Vou descontar que hoje o mais importante em educação é fazer boa figura no PISA, um ranking da OCDE (por acaso uma organização económica e não académica), onde se preferem pessoas ensinadas a produzir, serenamente, com elevada rentabilidade do que pessoas capazes de pensar e agir, inquietas, de forma a fazer evoluir a sociedade.

Vou ignorar, ainda, que as palavras de António Costa devem soar a ameaça para todos os professores por, respeitando a tradição legada pelos governos anteriores, indiciarem novas reformas inconsequentes e mais burocracias desesperantes que tornam a sala de aula um lugar de infelicidade para quem ensina e para quem é ensinado.

Vou, portanto, meter na gaveta o ceticismo dado por 40 anos de falhanços e aproveitar esta paixão do atual líder do executivo, em estilo Guterres, para deixar uma sugestão, já aqui escrita em 2010, apresentada por mim noutro lugar em 2006, que secunda outras opiniões semelhantes de gente relevante (lembro-me, por exemplo, de Pacheco Pereira, que há anos defende o mesmo) e que pretendo levar ao Congresso dos Jornalistas do mês que vem para estes, se o quiserem, reivindicarem ao governo e à AR a sua aplicação: o ensino básico deve passar a incluir uma disciplina sobre literacia da comunicação de massas ou algo semelhante.

O que se pretende é que os jovens portugueses tenham possibilidade de se educarem de forma a serem capazes de lidar responsavelmente e conscientemente com os novos sistemas comunicacionais e acarinhem os seus direitos de cidadania; que possam interpretar, descodificar, criticar, distinguir e valorizar as mensagens dos jornais, da TV, da rádio, da web e das redes sociais; que saibam defender-se dos crimes perpetrados através da internet (difamação, fraude, pedofilia...) e se armem de instrumentos de ajuda à deteção da verdade e da falsidade; que entendam os vários géneros jornalísticos e diferenciem opinião de notícia, reportagem de análise, crónica de relato; que detetem e critiquem a manipulação informativa; que sejam futuros leitores e consumidores de informação, exigentes e qualificados.

Se queremos que o país e o mundo não sejam governados por golpes de boatos lançados na internet, reproduzidos na comunicação social, isto é tão importante como aprender a falar, a ler e a contar.

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