António Costa é mesmo peixe que morre pela boca

Ouvi o secretário-geral do Partido Socialista (repito: socialista) queixar-se, com razão, da política que levou 300 mil portugueses a emigrarem. Foi, disse, uma enorme perda de "capital humano"...

A teoria do capital humano, burilada desde há mais de 50 anos pelos economistas da Escola de Chicago e pelos apóstolos da globalização, vê na educação de cada indivíduo um investimento financeiro: quanto mais cada um aprende, mais cada um tem possibilidade de fazer fortuna e, por isso, a distribuição da riqueza será mais equitativa.

Todos os dias a vida real desmente a teoria: um por cento da humanidade tem 40 por cento de toda a riqueza e os rendimentos de quem trabalha não se aproximam dos rendimentos do capital, pelo contrário.

A teoria do capital humano garante ser a educação um elevador social mas concebe um ensino onde se normaliza, em direção à máxima produtividade, o potencial físico e intelectual dos estudantes, mentalizando-os para a busca da rentabilidade empresarial e para a disciplina da aceitação de que a organização económica não pode ser alterada. Nas escolas de elite afinam-se, em contrapartida, as técnicas de liderança pragmática que perpetuam o lugar dos privilegiados no topo da escala social.

A teoria do capital humano deseja indivíduos empreendedores. Neste contexto, porém, o empreendedor é um escravo de um projeto empresarial, aparentemente seu, onde aplica todo o seu tempo e conhecimentos na busca frustrante de uma fortuna quimérica.

A teoria do capital humano finge acabar com trabalhadores e patrões e substitui-os por fornecedores e clientes. Mas tem o mesmo objetivo de sempre: redução do custo do trabalho.

A teoria do capital humano reinventa o operário do século XIX: dá-lhe banho, um fato, um computador, um curso, chama-lhe empresário e, em vez de salário, promete-lhe lucro. Reconverte o escriturário do século passado: empresta-lhe uma casa, um carro, entrega-lhe um cartão de crédito, vende-lhe produtos, viagens, ações. Chamou-lhe consumidor, agora chama-lhe gestor e exige-lhe a ética, a cobiça e o pathos de um executivo num banco de investimento.

A teoria do capital humano leva milhões de homens e mulheres, atomizados, sem ação nem espírito coletivos, competidores, a pensarem em futuros filhos como se desenhassem um plano de negócios: "Este projeto é financeiramente viável"?... É este o Homo oeconomicus que substitui o Homo sapiens.

A teoria do capital humano é um dos pilares da sociedade neoliberal. Ao morder o anzol da aparente benignidade da expressão, o socialista António Costa demonstra, mais uma vez, ser mesmo peixe que morre pela boca.

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