A ciência passou a ser uma anedota?

Os avanços tecnológicos e científicos tornaram-se uma anedota. Mentira? Bem, pelo menos neste Carnaval, em Portugal, há corsos, como o de Loulé, a gozar com a simbologia tecnológica e futurista da Web Summit. Na verdade, se pensarmos nos robôs Sophia e Einstein, que o esperto David Henson, seu criador, transformou em número de feira lucrativo, o ambiente grotesco do Entrudo parece, de facto, ter tomado conta do mundo científico.

Nesta semana tivemos um exemplo anedótico: o automóvel Tesla, com um boneco a fingir de condutor, está a caminho, dentro de um foguetão, de ser lançado numa órbita perto de Marte para, certamente, se desintegrar no espaço.

Esta inutilidade exibicionista é capaz de impressionar papalvos mas, oficialmente, destina-se a assinalar o êxito do foguetão Falcon Heavy, que tornou as viagens ao espaço cem vezes mais baratas do que antes... Pelo menos é o que diz o senhor Elon Musk, proprietário da marca de carros Tesla e da fábrica Spacex.

As duas empresas do homem que num episódio da comédia A Teoria do Big Bang apareceu a trabalhar como voluntário numa sopa dos pobres são acumuladoras, até hoje, de imensa popularidade entre os media e, também, de prejuízos colossais ao nível, juntas, de muitas dezenas de milhares de milhões de euros.

Apresentam-se, porém, como inovadoras. Escondem, no entanto, o impacto ambiental: a fábrica de automóveis promete despoluir o mundo se conseguir massificar a utilização de carros elétricos mas não diz como se "fabrica" a energia que irá encher as baterias das viaturas; a construtora de veículos espaciais reutilizáveis consome fantásticos foguetes fumegantes e, também, nesta última viagem, parece insinuar, com o lançamento deliberado de puro lixo ao espaço, estar a solução dos problemas ambientais na Terra no lançamento para o vácuo sideral de porcarias empilhadas por debaixo da nossa atmosfera.

A robô Sophia foi tornada cidadã da Arábia Saudita. E o Falcon do senhor Musk vai lançar neste ano um satélite de comunicações para o riquíssimo país da Casa de Saud.

Um reino onde impera a polícia religiosa, onde as mulheres têm de ter um guardião masculino, andar cobertas, onde há crimes de blasfémia sentenciados com chicotadas e onde a pena de morte é aplicável para o adultério, coloca-se assim na vanguarda do progresso tecnológico e científico. Em Riad a robô Sophia, uma simulação de mulher, não tem de andar tapada com lenço nem caminhar um passo atrás de um robô masculino. Naquele país tem mais direitos a inteligência artificial feminina do que a verdadeira inteligência humana das mulheres.

Volto ao princípio, inspirado pelas ironias sarcásticas dos factos incidentais que vos relatei: os avanços tecnológicos e científicos tornaram-se uma anedota?

A Teoria do Big Bang, a comédia que referi atrás, garante há 11 anos, todas as semanas e nas televisões de todo o planeta, que sim: os personagens cientistas, protagonistas da série, são assalariados de universidades privadas, da indústria farmacêutica, do exército. Ganham mal, fartam-se de trabalhar, vivem em apartamentos minúsculos. O seu talento e saber excecionais são utilizados prioritariamente para a obtenção de cheques chorudos de mecenas, para fabricar cremes de maquilhagem inúteis ou para criar sistemas de orientação de mísseis militares indetetáveis pelo inimigo. Fazer ciência em nome do bem comum da humanidade é coisa dos tempos de liceu. Os cientistas d"A Teoria do Big Bang podem ser candidatos a um Prémio Nobel, mas não passam de uns proletas.

A caricatura aplica-se à realidade dos homens de ciência, dos engenheiros do futurismo, capturados pela economia liberal: estão a sofrer o mesmo processo do operário do final do século XIX, quando a tecnologia de ponta era trabalhada nas fábricas de ferro, aço, fumo e gente de fato-macaco com nódoas de óleo.

Esta nova espécie de proletariado desprevenido labuta em salas inoxidáveis, com plástico, silicone, ar esterilizado, braços robotizados e fato-macaco alvo, descartável. Na academia preferem casacos castanhos e calças de bombazina mas convencem-se de que são empreendedores e, a troco de salário fixo, medíocre, mendigam financiamento empresarial para os seus projetos.

Quando eram jovens, a ciência e a tecnologia eram profissões de futuro, prestigiadas, bem pagas. Agora o cientista e o engenheiro são trabalhadores assalariados, cujas capacidades são intensamente exploradas e cuja remuneração é proporcionalmente ridícula face à riqueza que criam.

Chegado a este ponto já tenho resposta para a pergunta inicial: não, os avanços tecnológicos e científicos não são uma brincadeira de Carnaval; são um processo muito sério, fascinante, de, mais uma vez, os donos da economia liberalizada revolucionarem os instrumentos de produção, bem como as relações de trabalho e sociais.

Na verdade, até já nos preparam para aceitarmos a robotização de milhões de empregos humanos a troco de um rendimento garantido, já nos fazem consumidores de invenções que ainda não saíram de projetos em papel, já nos fazem, até, turistas espaciais.

Muita coisa boa e muita coisa má vai acontecer à humanidade com esta evolução estonteante da ciência e da tecnologia. Eu gosto dela, gosto deste avanço, deste progresso que nos empurra, necessariamente, por instinto de sobrevivência, para a civilidade... E tenho uma esperança: a de que os cientistas e os engenheiros que o capitalismo decidiu proletarizar se apercebam do extraordinário poder que têm... É que se decidirem atuar juntos, eles podem desligar tudo. Até a robô Sophia.

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