E se o chef Ljubomir Stanisic continuar sem comer?

Não encontro explicação razoável para o ministro da Economia, Pedro Siza Vieira, não ter já recebido os grevistas da fome que, há seis dias, estão frente à Assembleia da República, num movimento reivindicativo de donos de restaurantes onde pontifica uma estrela mediática, o chef Ljubomir Stanisic, que conseguiu obter uma projeção nos jornais e TVs que trabalhadores anónimos, sindicatos e, até, associações empresariais em protesto habitualmente não conseguem.

Percebo que se receie que o movimento tenha por detrás a mãozinha de André Ventura e que possa ser, apenas, um instrumento de agitação do Chega.

É verdade que o líder do partido de extrema-direita se colou a estas pessoas para tirar benefícios propagandísticos e que ontem o líder do CDS, Francisco Rodrigues dos Santos, tentou fazer um número semelhante, que lhe correu bastante mal.

Talvez seja verdade, mas acho que, agora, isso não interessa.

É verdade que este movimento tem uma representatividade muito duvidosa, uma vez que há associações do setor com estruturas organizadas, a nível nacional, sujeitas a escrutínio e eleição, que deveriam ter prioridade nas negociações com o governo sobre ajudas ao setor da restauração.

Há parceiros sociais, patronais e sindicais que representam institucionalmente todos os profissionais desta área, e o governo não os pode desvalorizar em favor de um grupo inventado há semanas, que reúne apenas uma pequena parte dos envolvidos na questão.

Talvez seja verdade, mas acho que, agora, isso não interessa.

É verdade que um perfil como o do chef Ljubomir Stanisic parece apontar este movimento, mesmo se injustamente, para a defesa dos interesses dos empresários de cadeias de restaurantes de luxo, daqueles que cobram 150 euros a refeição e exploram descaradamente os seus empregados, e que as prioridades políticas na área deveriam ir para quem representa o restaurante, o café ou a pastelaria comuns, de menu corriqueiro e preços em conta, que no dia-a-dia dos tempos normais são usados por milhões de portugueses e de turistas.

Talvez seja verdade, mas acho que, agora, isso não interessa.

É verdade que um governo não deve abrir espaço ao reforço destes chamados "movimentos inorgânicos", do estilo "coletes amarelos" de há dois anos, que aparentam conseguir dar voz a gente com sentimentos de indignação e revolta, muitas vezes justos, mas rotineiramente abafados pela irrelevância imposta pelo sistema mediático tradicional e pela indiferença dos políticos palacianos.

Na realidade, o que esses "inorgânicos" procuram é, através de táticas reivindicativas propositadamente direcionadas no sentido de encurralar a insatisfação num beco sem saída, generalizar na população um estado de espírito de descrença na eficácia da política; de aumentar a convicção de degradação estrutural das instituições democráticas; de fomentar tendências antirregime, divisão, exclusão e confronto entre setores populacionais; de fazer aumentar a preferência por soluções autoritárias e musculadas "que ponham isto na ordem" em prejuízo dos valores da liberdade e da democracia.

Talvez seja verdade, mas acho que, agora, isso não interessa.

Estes grevistas da fome podem ser uns tipos manipuladores, inoportunos, pouco representativos e, até, perigosos. Não sei e aquilo que os oiço dizer não me parece apontar para isso - mas posso estar a ser ingénuo.

Porém, há algo que sei: eles têm razão em exigir soluções políticas para a tragédia financeira para onde foram empurrados pela COVID-19 e por medidas governamentais.

Mesmo se as suas propostas de redução de impostos ou outras que apresentam para responder às dificuldades não forem sensatas ou viáveis, mesmo se aquilo que reivindicam servir só a eles e não servir para outros empresários e trabalhadores da área que passam por dificuldades semelhantes, isso não tira razão à exigência principal: o poder tem de olhar melhor para este tema e fazer mais do que já fez até agora.

Depois há outro facto político: num par de dias estas pessoas do "Movimento Pão e Água" arranjaram 62 mil assinaturas de apoio à exigência, nada extraordinária, que acabaria com a greve da fome: serem recebidos pelo primeiro-ministro ou pelo ministro da Economia. Este apoio à petição não pode ser ignorado.

Sim, é verdade que aceitar receber estes senhores é dar-lhes uma vitória e isso pode trazer um montão de problemas a seguir, mas, francamente, há um facto humanitário, crucial que se sobrepõe a todas essas reservas: se o chef Ljubomir Stanisic e os seus companheiros continuarem sem comer ficam doentes.

Deixar isso acontecer, nestas circunstâncias é, simplesmente, inaceitável e revoltante.

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