Do que precisou Cristiano Ronaldo para ser lenda do futebol?

Uma lenda do futebol conquistou esse estatuto por ser um homem que burilou um carácter obsessivamente competitivo, egocêntrico e egoísta. Uma lenda do futebol não pode perder uma oportunidade para brilhar, para demonstrar o seu génio, a sua indispensabilidade, a sua superioridade, a sua originalidade, o seu protagonismo. Uma lenda do futebol é um indivíduo individualista, patológico numa forma de desespero ansiosa, sempre à espera do delírio regenerador da multidão.

Quando Cristiano Ronaldo estraga jogadas de golo certo por querer ser ele a resolver, sozinho, um resultado; quando se zanga com os companheiros da equipa que não lhe passam a bola; quando vai ao meio do campo, quase ao pé da sua defesa, para receber o esférico de Pepe a tentar uma corrida impossível para a baliza contrária, no meio de dez adversários; quando Cristiano Ronaldo nos leva, enfim, ao desespero por desperdiçar, tantas vezes, tanto talento e tanta força está, coerentemente e consistentemente, a trabalhar, disciplinado, para um único objetivo: a construção do seu estatuto de lenda.

A moeda, a boa moeda, que as lendas de futebol cunham como marco perene na história deste desporto tem esta face, esta cara que exalta o perfil de um herói, de um super-homem, de um predestinado, de um indivíduo ególatra, de um adorado ditador narcisista.

Esta moeda, simultaneamente, tem uma coroa, um outro lado, uma contraface: a do grupo, a da equipa que colabora com a lenda do futebol e com quem a lenda do futebol colabora.

São 11 atletas, mais outros tantos no banco de suplentes, que durante 90 minutos fundem as mesmas ideias de cooperação, o mesmo conceito de corpo, o mesmo espírito unido e indivisível, a mesma vontade obstinada de vencer qualquer adversário e qualquer adversidade.

A vitória final do grupo é a subida da lenda do futebol ao reino dos deuses.

Foi esta ideologia do coletivo, que ao mesmo tempo serve o interesse individual, que valeu à Seleção portuguesa, no último Europeu, quando o melhor dos melhores, Cristiano Ronaldo, foi deitado ao chão, na final do campeonato: lembra-se quando uma borboleta poisou na cara da lenda do futebol, no preciso momento em que ela percebeu que tinha de sair? Lembra-se como essa representação de toque divino pareceu abençoá-la? Foi, na verdade, a equipa que recebeu a bênção e conquistou a Taça, sem a lenda do futebol, mas com a lenda do futebol,.

O grupo das grandes equipas de futebol une-se em bloco na mesma busca pela vitória, a qualquer preço, mesmo que custe um cartão vermelho, uma expulsão ou o sacrifício de um dos soldados do seu exército, substituído por outro e retirado prematuramente desta batalha sem tiros, em favor de interesses superiores.

Em benefício do coletivo até a lenda do futebol, a vedeta da equipa, o seu indivíduo mais notável e indiscutível, pode ser momentaneamente dispensável.

Este grupo combina, partilha e tolera, ensinado pelo treinador (o sábio, o mestre, o guia) as táticas, os truques, as manhas, os gritos de guerra, os amuletos, as birras, as jogadas, os abraços, os beijos que permitirão todos alcançarem a glória e que alcandorará o melhor dos seus ao pódio restrito dos que serão lendas do futebol.

Numa equipa de futebol que tem Cristiano Ronaldo, o melhor jogador do mundo, todos trabalham para a equipa e, consequentemente, todos trabalham para Cristiano Ronaldo.

Na partida com a Espanha que iniciou a jornada portuguesa no campeonato do mundo de 2018 foi Cristiano Ronaldo, com três golos, que salvou a equipa da derrota. Todos os especialistas do jogo explicaram isso na sexta-feira passada.

O que não explicaram é o que é preciso, quando a equipa se atrapalha, se confunde e perde a concentração, como aconteceu em várias fases da contenda, para uma lenda do futebol conseguir manter a lucidez, a vontade e a habilidade que lhe permite alcançar o rasgo, (neste caso o triplo rasgo) capaz de dar a volta à situação.

A história do futebol demonstra-o várias vezes: não há lenda do futebol que não tenha uma dureza de carácter poderosa, que a torna quase insensível à contrariedade e, ao mesmo tempo, não há lenda do futebol que não possua o romantismo cândido dos loucos que acreditam na realização do impossível, de que há sempre tempo para dar a volta ao resultado.

Ainda hoje falamos do Eusébio que no Mundial de 1966 acreditou que podia virar uma desvantagem de 3-0 perante a Coreia do Norte. E ninguém se esqueceu dos três golos marcados na Suécia por Cristiano Ronaldo, que em 2013 garantiram o apuramento para a Copa no Brasil.

A lenda do futebol sabe, também, o que é a derrota, o que é perder à frente dos olhos de milhões, o que é errar ao som dos assobios da mesma multidão que, a cada golo, grita, desvairada, o seu nome. Cristiano Ronaldo chorou nas derrotas mas nunca soçobrou.

E esta é a última qualidade necessária para fazer uma lenda do futebol: adorar, como um viciado, o amor da multidão, mas ser indiferente, como um autista, ao ódio da multidão.

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