Centeno alcandorado a coveiro do Eurogrupo e da geringonça

Quando é que a ambição pessoal deixa de ser legítima em política? Se entendermos que a ciência de governo de um Estado deve ter como guia a obtenção do melhor resultado possível para o bem comum do povo que vive nesse Estado (há quem não pense assim, mas vamos admitir como pacífica esta intenção), então a ambição pessoal, legítima, que leva as pessoas e os grupos a lutarem pela conquista do poder passa a ser ilegítima e é até condenável quando se traçam objetivos ou percursos nessa luta que lesam o bem comum.

Lesar o bem comum tem gradações: uma coisa é usar o Estado deliberadamente para ter benefício financeiro ou patrimonial pessoal, como num caso de corrupção; outra é presumir que a ação política que se está a desenvolver serve o bem comum mas, afinal, prejudica-o. Uma coisa é ser bandido, outra é ser desastrado.

Ontem ouvi na rádio TSF o socialista inimigo da geringonça Francisco Assis a manifestar o seu contentamento por ver "um português alcandorado" a um posto.

"Alcandorar", como o leitor sabe, quer dizer "ascender", "guindar-se", "encarrapitar-se", "empoleirar-se" e o que festejam Assis e toda a classe política (a começar no Presidente da República), que ontem saudaram a eleição de Mário Centeno para presidir ao Eurogrupo, é a capacidade que mais um português teve para se "empoleirar" numa cadeira de poder europeu....

A ambição pessoal de Mário Centeno em "alcandorar-se" a presidente do organismo informal dos ministros das Finanças da zona euro é certamente uma bela medalha para a carreira política e profissional do economista. Para quem quer, apenas, subir na vida, a tarefa foi cumprida.

A pergunta seguinte, porém, por falarmos de governos e não de concursos de homens de sucesso, é esta: a ambição pessoal de Centeno é legítima do ponto de vista de interesse para o bem comum do povo e do Estado portugueses?

Em março passado, quando a hipótese estava lançada, deixei aqui estas outras perguntas:

"Mário Centeno acha que vai dar lições à alemã Angela Merkel e ao francês Emmanuel Macron?

"Mário Centeno acreditou mesmo em Schäuble quando este o apelidou de "Cristiano Ronaldo das finanças"?

"Mário Centeno acha que não vai ser, a maior parte do tempo, um mero porta-voz de decisões que irão contra as suas convicções políticas, académicas e profissionais?

"Mário Centeno acha que ao ganhar essa eleição para o Eurogrupo não está a abrir caminho para facilitar uma crise política em Portugal?

"Mário Centeno, ao presidir a um órgão a caminho da extinção, acha que vai antecipar o papel do futuro ministro das Finanças europeu com que sonham os poderosos da União?

"Mário Centeno acha que não vai ser (como Durão Barroso foi) um passarinho no meio de falcões?"

Também assinalei que Mário Centeno, "com uma inacreditável mistura de arrogância e candura", ao proclamar pretender ensinar aos seus colegas europeus os segredos do sucesso da sua gestão financeira em Portugal estava a cair na armadilha da ilusão eurocêntrica: para estes lugares é raro ir algum notável da Alemanha e da França, os países mais poderosos da União Europeia, que no jogo de equilíbrio entre eles e entre as tendências políticas que conjunturalmente sustentam os respetivos governos procuram encontrar nos países mais pequenos um "idiota útil" que sirva ou, pelo menos, não afronte os seus interesses particulares.

Mário Centeno só conseguiu, portanto, ganhar a cadeira da presidência do Eurogrupo porque, antes de mais nada, os governos da Alemanha e da França estão convencidos de que essa nomeação corresponde à defesa do bem comum destes dois países.

Já tinha sucedido o mesmo quando Durão Barroso chegou à Comissão Europeia, como o tempo e a crise financeira vieram, brutalmente, demonstrar. Não é um problema de personalidades, é a formatação da própria União Europeia e da zona euro que impõem prioridades políticas favoráveis a Berlim e a Paris nas quais se enquadram, em plano secundário, os interesses das outras capitais. Estamos fartos de saber que é assim.

Bastava, na lista de perguntas que fiz em março, haver uma resposta desfavorável aos interesses de Portugal para a legítima ambição pessoal de Mário Centeno presidir o Eurogrupo ser contrária ao interesse do bem comum dos portugueses. Esta ambição é, assim, ilegítima e um erro grave.

Vamos comprová-lo, por exemplo, quando a reforma do Sistema Monetário Europeu (que matará o Eurogrupo, com, provavelmente, Centeno a fazer de coveiro) tirar, de vez e sem retorno viável, a independência financeira a Portugal.

E nesse dia, problema menor, a possibilidade de um governo que volte a unir a esquerda em 2019 também morrerá.

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