Uma culpa antiga

Não sei se as mortes de Pedrógão podiam ser evitadas. Se foi um daqueles fenómenos em que tudo corre mal ao mesmo tempo: natureza, decisões erradas, condições meteorológicas, avarias. Sei que a natureza é muito mais forte do que nós, coisa muitas vezes difícil de explicar aos nossos filhos que julgam que o leite não é fabricado nas instalações da Coca-Cola ou que não percebem a não existência de uns softwares para a dominar.

Julgo saber, porém, que podemos fazer alguma coisa para que não acabemos por ser um deserto gigante junto ao mar. Estou mesmo convencido de que não é inevitável que a nossa mancha florestal vá desaparecendo, enquanto os países com condições meteorológicas, o mesmo tipo de flora e até circunstâncias económicas parecidas com as nossas a vão vendo crescer.

O facto, porém, é que nós, como comunidade, temos deliberado viver todos os anos com incêndios que dizimam a nossa mancha florestal.

Não, não é o velho argumento de que há culpas de todos em geral e de ninguém em particular. É apenas a constatação de que há uma infinidade de questões nesta questão mas que vão sempre dar ao mesmo sítio: política, decisões da comunidade.

Não sou capaz, muitíssimo longe disso, de saber de todas as razões para este flagelo anual dos incêndios, nem as suas implicações nem o que fazer para que, no mínimo, se remedei. Sei, porém, bem que um cidadão que herda uma courela ou um pedaço de floresta não pode, na maioria das vezes, pagar a sua limpeza, nem sequer vai a essa propriedade e não tem a mínima motivação para a vender ou para a entregar a alguém, já que os impostos que paga para a manter na sua posse são inexistentes. Julgo saber que as monoculturas florestais não ajudam à saúde da floresta. Sei que coordenação dos sistemas de segurança não serão os melhores. Suspeito que os Sirespe desta vida não funcionarão da melhor maneira. Não ignoro que o desmantelamento dos serviços florestais e de muitos outros ligados à preservação do património natural em função de um suposto emagrecimento estatal (sempre nos sítios errados) teve as esperadas consequências. Ou seja, sei o mesmo que o leitor sabe. E, como em muitas outras situações vitais para o país, o diagnóstico está feito há muito tempo, o que há a fazer é, para os especialistas, relativamente óbvio, mas, claro, falta estabilidade nas políticas e avaliação da implementação.

Sei de forma bem mais informada que existiram, e existem, movimentos sociais, decisões de cada pessoa motivadas pela busca de uma vida melhor que provocam alterações significativas na comunidade. Como não desconheço que esses movimentos têm de ser corrigidos ou atenuados por políticas públicas que não provoquem o abandono de partes significativas do país.

Ora, essas políticas ou não existiram ou não resultaram, e isso levou a que parte importante do nosso território esteja desertificado.

Concelhos que há quarenta ou cinquenta anos tinham o dobro ou o triplo das pessoas que agora têm e que os que ainda lá estão são na sua esmagadora maioria velhos, muito velhos. Pedrógão Grande, por exemplo, tinha em 1960 sessenta habitantes por km2 e em 2011 tinha trinta. E era capaz de apostar que a média de idades desse concelho há cinquenta anos era bem mais baixa do que é hoje. Mais, essa desertificação é mais profunda do que os frios números indicam. Os lugares fora das vilas ficaram vazios, aldeias desapareceram deixando ao abandono a terra.

Com menos gente, a perda de poder político foi o passo seguinte. Não só estas partes do território ficaram menos representadas como os representantes desses locais junto dos centros do poder, mal chegados à grande cidade, ou mesmo às mais pequenas, têm uma amnésia seletiva e esquecem as condições e os problemas dos seus locais de origem.

O Interior foi abandonado por todo o poder político - por nós, como comunidade, estenda-se. Por aqueles que daí provêm como por os que têm a obrigação de pensar o país como um todo, que têm de perceber que as assimetrias bloqueiam o desenvolvimento, que a ocupação do território é não só um requisito de soberania mas de criação de riqueza, que a concentração excessiva nos grandes centros urbanos cria mais problemas do que vantagens. Depois, há um caldo cultural e mediático hostil a tudo o que não sejam os problemas urbanos. O Interior e o mundo rural - que não sendo a mesma coisa estão os dois em vias de extinção - só são notícia na época dos incêndios e quando há um grave crime de sangue. São vistos como uma espécie de países distantes, exóticos e violentos. Muito longe da nossa realidade urbana e pretensamente moderna e cosmopolita. Eu participo em programas de televisão e rádio há muitos anos, não me lembro de falar de temas como a agricultura, política florestal, desertificação, desenvolvimento do Interior.

Existe uma cultura de desprezo por o mundo rural. Uma ignorância arrogante contra esse mundo muitas vezes vestida de defesa da natureza e dos animais. Vê-se bem nas pessoas que desfilam contra as touradas ou que se indignam contra as que comem animais. Nunca conheci maiores ignorantes sobre a natureza e o mundo rural do que os antitouradas e os combatentes a favor dos direitos dos animais.

As consequências de tudo isto são as que estão à vista: o Interior é uma espécie de desterro, um lugar abandonado, a viver num estertor e que continuará a arder. Culpa de décadas de governação, de gerações inteiras. Ou seja, culpa nossa e só nossa.

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