Patetas alegres

Tenho assistido a um certo regozijo de alguns setores da direita portuguesa, mais ou menos folclórica, com a vitória de Donald Trump. Uns comemoram uma suposta derrota da esquerda, outros divertem-se com aquilo que chamam uma revolta contra o politicamente correto.

Não perceber que ter como líder da maior potência mundial um indivíduo que nega grande parte dos valores da democracia, que acha que se se tem armas nucleares são para ser usadas, que nega o aquecimento global, que tem criacionistas e racistas confessos no seu gabinete, que advoga armas nas salas de aulas, que quer acabar com a progressividade dos impostos, que se devem abandonar os doentes na rua se não tiverem dinheiro para pagar um médico, que quer negar a entrada de pessoas no país só por que são fiéis de uma certa religião é um dos maiores ataques à nossa civilização, à nossa forma de vida, está cego. Ou então não acredita nos princípios que sustentam a democracia liberal e o que têm sido as nossas convicções comuns sobre solidariedade e mesmo decência. Porque o que está em causa não é uma derrota da esquerda ou da direita, mas sim um estrondoso revés para a democracia e para a liberdade. E nenhum desses campos políticos pode reivindicar o exclusivo da sua defesa.

Não há dúvida, porém, de que, neste momento, os fenómenos populistas mais perigosos se estão a alojar à direita - como já estiveram à esquerda, nomeadamente na América Latina. Trump é o maior e mais perigoso caso. Pensar que a vitória dele e o crescimento de gente como ele por essa Europa fora é uma derrota da esquerda e que é a esquerda que está a atirar as pessoas para os braços desse tipo de gente - como neste jornal defendeu António Barreto - é, mais do que tudo, um atestado de derrota absoluta de uma direita democrática, respeitadora dos direitos das minorias, não xenófoba, não racista e lutadora contra os extremismos. Dando de barato que as esquerdas exibem arrogância e superioridade moral e que é isso que está a fazer crescer os inimigos da democracia, que diabo anda a fazer a direita e o centro-direita? Devemos aceitar que a única maneira de combater essa suposta pesporrência das esquerdas é ver a direita transformar-se em populista e demagoga? É isso? Não se pode aceitar colocar a questão nesses termos, como é óbvio. É exatamente onde os populismos estão a conquistar apoios que se deve ter um discurso e uma prática para se lutar por um outro caminho. A direita e o centro-direita não podem ver o que foram e são os seus valores usurpados por gente como Trumps, Le Pens e outros que tais.

Por outro lado, a própria assunção das esquerdas da sua derrota não é mais que uma forma, essa sim, de expor a sua imaginária - ou que lhe querem colar - superioridade moral. No fundo, o discurso é: "se mostrarmos que somos os defensores dos valores democráticos e acrescentarmos que vamos dar melhores condições de vida e melhores expectativas, as pessoas caem-nos no colo, já que do outro lado só há populismo e demagogia". Ao defenderem que foi uma derrota da esquerda por haver muita gente descontente e que se contentar as pessoas elas correm para os seus braços, dizem também que só eles é que podem ter soluções políticas justas e que conduzem ao bem estar.

Mal sabem que pôr a questão dessa forma leva a uma diabolização do debate político que inevitavelmente conduz ao caos e a ditaduras.

Fartei-me de ouvir que as pessoas estariam fartas do politicamente correto e, ao menos, Trump não o seria. Pelos vistos, isso nas cabeças dessa tal direita portuguesa, corre como algo de bom que o novo presidente dos USA traz. Temos assim de aceitar e ver como até elogiável que um presidente goze com deficientes físicos - peço desculpa por ser politicamente correto e pensar que é capaz de não ser algo de muito aceitável alguém, e logo com tanta responsabilidade, ridicularizar pessoas com esse tipo de problemas. Também devemos ver com normalidade e de forma calma que o procurador-geral dos Estados Unidos seja alguém que simpatiza com o Ku Klux Klan - pronto, outra caretice politicamente correta: então o homem não pode pensar o que muito bem entender e defender o que muito bem entender e ser procurador-geral? E devemos esperar com calma pela atuação do estratega-chefe de Trump, um notório e declarado fascista - presumo que chamar fascista a alguém que notoriamente o é seja cair no politicamente correto.

Ser politicamente correto não é mau, é bom. Ser racista, xenófobo, misógino, ofender minorias, humilhar pessoas com defeitos físicos ou intelectuais não é aceitável, não pode ser considerado tolerável. Como pôr no mesmo nível de discussão quem contraria factos científicos com opiniões não fundamentadas não é acreditar na liberdade de expressão, é tão-somente semear a ignorância e dar campo a quem tenta manipular as pessoas com intenção de ganhos pessoais ou corporativos.

Esta vaga de tolerância, de compreensão, de "logo se vê" - e até de apoiantes de causas que julgávamos extintas - com a chegada ao poder de Donald Trump assusta e anuncia tempos que todos pensávamos que não voltariam a repetir-se. Até aqui, em Portugal.

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