Ataque ao PSD

Qualquer partido de poder está, por definição, em crise quando não o tem, mas os problemas do PSD estão muito para lá desta contingência. Não vale a pena lembrar a plasticidade ideológica, a tal que permite a um partido com o nome de social-democrata reclamar-se de centro-direita. O facto é que o PSD tem sido um partido que se tem adaptado aos tempos sem grande preocupação em se definir a si próprio. É, aliás, uma das novidades da campanha interna do PSD a aparente necessidade dos candidatos em dizer que são deste ou daquele centro. Mesmo isso corresponde mais ao pragmatismo típico do PSD do que a uma necessidade de reposicionamento ideológico. Ambos os candidatos percebem que a deriva discursiva direitista de Passos Coelho só conseguiria voltar a levar o PSD para o governo se todos os diabos do mundo aterrassem na Portela. O PSD sempre geriu o problema da pouca definição ideológica com uma forte implantação social, a base autárquica e a captação de bons quadros. Ora, sendo certo que o PSD continua a ser um partido com um poder autárquico sólido, não deixa de ser verdade que os resultados eleitorais têm sistematicamente descido. Por outro lado, é notória a incapacidade quase total de captar gente com carreira, com notoriedade e provas dadas na sociedade civil. O partido está praticamente entregue ao jotismo e a um aparelho com a lógica da barganha de lugares.

Na campanha em curso não há um único nome novo, uma única personalidade disposta a dar o nome por uma candidatura. E, neste aspeto, possíveis críticas a Passos Coelho não procedem, esse fechamento do partido já vem de trás. A rede de poder e a implantação social do PSD não está em perigo, num futuro próximo pelo menos, mas corre essencialmente dois perigos.

O primeiro é o da degradação da sua base eleitoral que resulta das razões acima aduzidas: a falta de gente de qualidade e o aparelhismo. O segundo é o facto de o PSD ser alvo de cobiça de extremistas. Está à vista de todos que uma espécie de direita acantonada no Observador, com pessoas dispersas por outros media e grupos de reflexão, bem financiada e disciplinada, tem o objetivo de transformar o PSD num partido de direita dura. Passos Coelho era o líder que estavam a tentar transformar - e em parte conseguiram -, mas não houve tempo suficiente. Agora, procuram um populista que agregue descontentamentos e que seja moldável ideologicamente. Por enquanto, apoiarão quem lhes parecer que deixa a máquina sossegada e não trará pessoas novas para o partido. A maior degradação do PSD é essencial para a estratégia desse grupo. O PSD sem quadros e sem poder está, como nunca, vulnerável a gente que pretende radicalizá-lo. Não será nem com Rui Rio nem com Santana Lopes que isso acontecerá. Mas um possível desaire eleitoral nas legislativas poderá abrir caminho para uma solução perigosa para o partido e, consequentemente, para o nosso sistema partidário.

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