Desejos e realidade

Basta olhar para os resultados das eleições para saber que há muita gente que não quer o PS no governo com o apoio do BE e do PCP. Também não é coisa que me deixe entusiasmado.

Por outro lado, não é difícil perceber que os acordos entre esses três partidos são frágeis. Aliás, bastava não estarem todos no governo para que assim fosse. Por outro lado, mesmo que os tais documentos fossem escritos com sangue e se jurasse por todos os santinhos que se aprovavam os orçamentos, ainda que o PS acabasse com a escola pública ou que António Costa decidisse vender os Jerónimos, ninguém faria mais sossegado porque, pura e simplesmente, não seriam credíveis e poderiam cair como os que existem podem cair. Mas confesso, preferia que ficassem umas ideias escritas mais sólidas sobre o assunto.

Mas uma coisa é não se querer uma solução que nos desagrada ou não se ter grande confiança nela, outra são as regras do jogo. Ou seja, podia-se desejar que o Presidente da República obrigasse o PS a votar de acordo com as vontades da PAF, mas Cavaco não o pode fazer. Também se pode querer muito que Cavaco obrigue o PS, o BE e o PCP a assinar um acordo como ele quer, mas, por muito que ele queira, não tem poderes para isso. Pois claro, Cavaco Silva foi eleito pela maioria dos portugueses, é o provedor do povo e pensa sempre no superior interesse da nação, mas apesar disso tudo a Constituição não lhe dá poderes para obrigar os partidos a assinar o que ele quer que eles assinem, nem sequer lhe dá competências para avaliar programas de governo ou lhe atribui poderes de adivinhação sobre a sinceridade das intenções das partes. Mas a lei constitucional, nestas circunstâncias, dá-lhe um poder: não acreditando na solução que lhe é apresentada, deixar o atual governo em gestão. É o único poder real que tem. No fundo, todos os poderes resumem-se a isto: "Se não fizeres isto, eu faço-te aquilo." E a ameaça concretizável, neste caso, é termos durante dez meses um governo de gestão e depois o próximo Presidente que decida o que fazer.

É certo, porém, que no caso de indigitar Costa a responsabilidade do que vier a seguir será do líder do PS e dos outros dois partidos; se mantiver a PAF no poder é Cavaco que tem de responder por tudo o que vier a acontecer nos próximos tempos.

Faça favor de decidir, Sr. Presidente, mas rápido, por favor, as alternativas não são muitas.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG