Depois do Marão já não mandam os que lá estão

Depois de termos ouvido o ministro Teixeira dos Santos apregoar a impossibilidade de o Governo pedir ajuda externa e o primeiro-ministro há meia dúzia de dias afirmar peremptoriamente que Portugal ia conseguir sobreviver à crise sem ajudas externas, o inevitável aconteceu. Mais uma vez, num relativamente pequeno espaço de tempo (trinta anos), temos de admitir que não somos capazes de resolver os nossos próprios problemas e somos forçados a pedir a alguém para nos vir dizer o que temos de fazer.

Como todas as atitudes do Governo desde que a crise internacional eclodiu, a decisão vem tarde e a más horas. Já os graves problemas causados pelos desman- dos dos bancos americanos com a inestimável colaboração das agências de rating (as tais que garantiam solenemente a solidez do Lehman Brothers e quejandos apenas um dia antes de eles implodirem, e que agora dizem que o Egipto ou o Paquistão estão em melhor situação que Portugal) estavam a deixar a economia mundial em estado de choque, e o Executivo insistia que tudo não passava duma nuvem passageira. Depois, o mundo ia mudando de dia para dia e as medidas eram tomadas não em função da realidade mas à luz dum mundo virtual que Sócrates e o Governo teimavam em viver.

As responsabilidades da equipa governativa pelo actual estado de coisas são óbvias e indesmentíveis. É uma perda de tempo reflectir sobre o discurso de que tudo se iria resolver se a oposição tivesse viabilizado o enésimo PEC. Digamos, tentando encontrar toda a boa vontade possível, que se estaria a dar uma aspirina a quem sofre da doença do legionário. Não seria, com certeza, com meia dúzia de medidas que se ia inverter uma descida vertiginosa para o abismo para onde não começamos a deslizar só agora.

A irresponsabilidade governamental ao não responder atempadamente à crise internacional foi apenas uma parte, por ventura, pequena do problema. Este Governo teve todas as possibilidades de alterar os problemas endémicos do País que faz que qualquer convulsão internacional deixe Portugal de rastos. Será que alguém acredita que um país pode endividar-se indefinidamente com crescimentos económicos baixíssimos? Pois claro, há três anos o nosso endividamento estava na média europeia, mas quando pedimos dinheiro emprestado e não o rentabilizamos cedo ou tarde a ruptura acontece.

E convém recordar que não estamos a falar de pessoas que chegaram ontem: a maioria dos responsáveis tem mais de dez anos de exercício de poder.

O que é que mudou em termos de modelo económico de desenvolvimento na última década? Que reformas profundas foram feitas? Que crescimento económico tivemos? Quanto se diminuiu o fosso entre ricos e pobres? Na essência, alguma coisa se alterou? Nada, ou muito pouco.

E se estivesse outro partido no poder, será que teria sido diferente, algo teria mudado para melhor? É uma pergunta de resposta impossível. Nunca o saberemos. O que sabemos é que os socialistas ou não foram capazes, ou, pura e simplesmente, acreditaram que o modelo estava certo. Os resultados estão à vista.

Mas a minha convicção é que estaríamos na mesma. Talvez um bocadinho melhor ou pior, nada de substancial. As soluções apresentadas eram sempre pequenas variações sobre as mesmas verdades de fé: o Estado tinha de ser grande porque a nossa sociedade civil era incapaz; os sistemas de saúde e educação (basta ver o que a actual ministra e o PSD fizeram ao excelente trabalho de Maria de Lurdes Rodrigues) não eram discutíveis; as reformas não podiam fazer-se "contra" os profissionais do sector; a lei laboral premiadora dos maus trabalhadores e patrocinadora de precariedade era direito adquirido; a lei das rendas, que obrigou uma inteira geração a não ter outra alternativa que não fosse a compra de casa, e é a principal responsável pelo nosso gigantesco endividamento privado, não podia mudar radicalmente; o estado da justiça servia para mui eloquentes discursos, mas não existiu uma única proposta séria de nenhum dos responsáveis políticos. No fundo, a grande alternativa era dizer que se ia fazer a mesma coisa mas com "melhores" pessoas e duma forma um bocadinho diferente.

O pedido de ajuda de quarta-feira foi a admissão de derrota duma inteira comunidade. Foi a derrota duma geração, dum modelo socioeconómico, dum modo de vida.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG