Contas de merceeiro

1. As contas de merceeiro são uma coisa desprezível. Têm princípios absolutamente ultrapassados e são próprios de gente pouco sofisticada. Dizem, por exemplo, que temos de assentar num livro o que gastamos e o que recebemos. Se no final dum dado período o dinheiro que entra for mais do que o que sai, o negócio corre bem; se assim não for, temos problema.

Claro está, se forem empresários modernos, assim mais evoluídos, podem sempre recorrer à engenharia financeira. Diz que é uma operação que só pode ser levada a cabo por uns senhores muitíssimo inteligentes que aprenderam umas técnicas especiais aprendidas em escolas com nomes em estrangeiro e que permite a uma empresa sobreviver apresentando consistentemente mais no lado do deve do que no do haver - há quem diga que a crise financeira que o mundo vive teve origem no uso e abuso destas extraordinárias técnicas, mas deve ser conversa de quem só sabe fazer contas de merceeiro.

Os pobres dos merceeiros é que não percebem isto. Na sua maneira tacanha de ver, quem não tiver dinheiro para pagar as contas tem de tratar rapidamente do assunto, ou fechando o negócio ou tentando corrigir o que está mal.

Para quem está familiarizado com a milagrosa engenharia, a notícia desta semana sobre a correcção dos défices dos últimos quatro anos não foi surpresa.

Aliás, não faltou gente a dizer que estas correcções não eram graves, e não foram só os actuais governantes - não há quem tenha passado pelo governo e não tenha usado e abusado dessas habilidades. É tudo uma questão de critério. Se tivessem posto o dinheiro que falta noutro lado qualquer, as contas batiam certas. Também há quem lhe chame contabilidade criativa.

Até é de espantar que se apresentem défices. Fossem bons engenheiros e o Estado tinha sempre superavit. A culpa é dos malandros da Europa, os tais culpados da nossa crise que não contentes em fazer-nos sofrer vêm agora obrigar-nos a ter uma contabilidade parecida com a dos merceeiros.

Uns milhões para o BPN? Mais uns tantos milhões para o BPP? Ainda mais milhões para a Refer e o Metro? Mas temos mesmo de pagar isso? Querem ver que também vamos ter de tapar os buracos da TAP, da RTP e doutras que tais? Será que temos todos de pagar as dívidas das fundações do Estado que nem o Governo sabe quantas são?

Ouvi, porém, um responsável governamental dizer que se estava a tratar do assunto. O Governo está a fazer um esforço no sentido de conseguir tirar os prejuízos das empresas de transportes do défice. Fiquei mais descansado. Talvez fosse melhor tentar geri-las duma forma mais eficiente ou, quem sabe, loucura das loucuras, privatizar (com critérios bem definidos) algumas delas, mas, pronto, já é alguma coisa. Também era capaz de não ter sido má ideia ter elaborado um plano para o BPN, após a nacionalização, com o fim de evitar que se aumentasse o criminoso buraco. Pode ser que quem vá convencer a Europa da questão dos transportes também arranje qualquer truque muito bem pensado para a questão dos bancos e, por favor, ninguém lembre as outras empresas públicas, institutos e fundações.

E, voltamos ao maldito merceeiro. Esse não dorme nem nos deixa dormir. Ele sabe que não há truque que apague a realidade. Lembra-nos de que as contas têm de ser pagas. Mais, recorda-nos que não foi ninguém que escolheu os produtos por nós. Fomos nós que os colocámos no carrinho de compras ou deixámos que alguém lá os pusesse. E não há engenharia financeira que nos livre de pagar o que gastámos ou o que alguém gastou por nós.

2. Segundo uma notícia de anteontem, o Presidente da República não irá promulgar o diploma que revogou a avaliação dos professores. Cavaco Silva travaria, e bem, uma lamentável atitude do PSD.

Se o diploma passar, é certo e sabido que só daqui a muitos anos teremos um outro qualquer sistema de avaliação.

Há uma enorme diferença entre apresentar princípios gerais e implementar um sistema. O mais difícil é convencer uma classe profissional que tem de ser avaliada, depois do método aplicado é muito mais fácil fazer adaptações e melhoramentos. Não se pára uma reforma desta dimensão a meio - apesar dos recuos da actual ministra - deixando um vazio inexplicável.

Mais, os custos políticos de tentar pôr a funcionar um programa diferente serão enormes e obviamente agravados pela instabilidade social que se avizinha. Os sociais-democratas andaram mal, muito mal.

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