Pedro Marques Lopes

Conhecem a última anedota do Brexit?

PremiumQuando uma anedota é uma anedota merece ser tratada como piada. E se a tal anedota ocupa um importante cargo histórico não pode ser levada a sério lá porque anda com sapatos de tigresa. Então, se a sua morada oficial é em Downing Street, o nome da rua - "Downing", que traduzido diz "cai, desaba, vai para o galheiro..." - vale como atual e certeira análise política. Tal endereço, tal país. Também o número da porta de Downing Street, o "10", serve hoje para fazer interpretações políticas. Se o algarismo 1 é pela função, mora lá a primeira-ministra, o algarismo 0 qualifica a atual inquilina. Para ser mais exato: apesar de ela ser conservadora, trata-se de um zero à esquerda. Resumindo, o que dizer de uma poderosa governante que se expõe ao desprezo quotidiano do carteiro?

Ferreira Fernandes

A escolha de uma liberdade

PremiumA projeção pública da nossa atividade, sobretudo quando, como é o caso da política profissional, essa atividade é, ela própria, pública e publicamente financiada, envolve uma certa perda de liberdade com que nunca me senti confortável. Não se trata apenas da exposição, que o tempo mediático, por ser mais veloz do que o tempo real das horas e dos dias, alargou para além da justíssima sindicância. E a velocidade desse tempo, que chega a substituir o tempo real porque respondemos e reagimos ao que se diz que é, e não ao que é, não vai abrandar, como também se não vai atenuar a inversão do ónus da prova em que a política vive.

Adolfo Mesquita Nunes

Penalizações antecipadas

PremiumUm estudo da OCDE publicado nesta semana mostra que Portugal é dos países que mais penalizam quem se reforma antecipadamente e menos beneficia quem trabalha mais anos do que deve. A atual idade de reforma é de 66 anos e cinco meses. Se se sair do mercado de trabalho antes do previsto, o corte é de 36% se for um ano e de 45%, se forem três anos. Ou seja, em três anos é possível perder quase metade do rendimento para o qual se trabalhou uma vida. As penalizações são injustas para quem passou, literalmente, a vida toda a trabalhar e não tem como vislumbrar a possibilidade de deixar de fazê-lo.

Marisa Matias

O planeta dos sustentáveis 

Premium Ao ambiente e ao planeta já não basta a simples manifestação da amizade e da esperança. Devemos-lhes a prática do respeito. Esta é, basicamente, a mensagem da jovem e global ativista Greta Thunberg. É uma mensagem positiva e inesperada. Positiva, porque em matéria de respeito pelo ambiente, demonstra que já chegámos à consciencialização urgente de que a ação já está atrasada em relação à emergência de catástrofes como a de Moçambique. Inesperada (ao ponto do embaraço para todos), pela constatação de que foi a nossa juventude, de facto e pela onda da sua ação, a globalizar a oportunidade para operacionalizar a esperança.

Maria Antónia de Almeida Santos

Comandantes de naufrágio

Premium Estamos a assistir a uma grande regressão das democracias liberais. As duas margens atlânticas do ocidente, que inventaram no último meio milénio o planeta global que habitamos, com a sua arquitetura política e o seu crescimento económico exponencial, estão neste momento num duplo processo tectónico de afastamento e fragmentação. Perante os gigantescos desafios da desordem crescente do mundo, na altura em que é preciso pagar a fatura ambiental e social, acumulada em séculos de dominação ocidental baseada na fusão fáustica entre capital, tecnologia e supremacia militar, eis que as democracias, um pouco por todo o lado, escolhem, para as governarem, líderes mitómanos e vendedores de tóxicas ilusões. O extraordinário caso do grito de lucidez de uma criança sueca, Greta Thunberg, parece ser a metonímia perfeita deste tempo em que os povos elegem chefes dotados de um pensamento infantil, enquanto são as crianças que exigem as palavras e os atos de maturidade, próprios dos adultos.

Viriato Soromenho-Marques

Os problemas de uma pessoa adorável

PremiumPensem na pessoa mais adorável que conheçam. Agora multipliquem isso várias vezes. Nem assim vão chegar perto. Tony, o protagonista da nova minissérie de Ricky Gervais para a Netflix, After Life, é um tipo extremamente adorável. A frase anterior não é conclusão deste texto, mas matéria de facto: a doutrina operacional do universo fictício onde a série decorre, povoado quase exclusivamente por outras personagens - vivas, mortas, ou assim-assim - cuja função primária é lembrarem Tony de que ele é um tipo adorável, cuja adorabilidade não é comprometida por qualquer outra coisa que aconteça.

Rogério Casanova

Pátria a mais

Premium Sobretudo por causa do domínio dos Filipes, os meus livros escolares tratavam os espanhóis como uma espécie de inimigos figadais e puxavam os galões de Aljubarrota para mostrar que, mesmo pequeninos, os portugueses também eram capazes de grandes feitos. A animosidade com nuestros hermanos era tão evidente nas mulheres (as Lolas de que falava O'Neill devem ter feito estragos) que me lembro de se dizer que as espanholas usavam muitos cremes mas não se lavavam e que, nas lojas, tinham a mania de ver com as mãos. Porém, do outro lado da fronteira, a vingança servia-se fria: uma amiga que se mudara para Mérida contava que lá os manuais escamoteavam pura e simplesmente as vitórias dos portugueses sobre os castelhanos e que, na voz da professora, tudo o que de bom acontecera no mundo era obra de espanhóis. Vizinhos pobres, contra o ressentimento tristonho de Portugal a Espanha empinava o nariz. Topou-o muito bem um escritor francês de visita a Lisboa nos anos 1980 ao afirmar que, enquanto aqui lhe perguntavam a medo se conhecia Pessoa, em Sevilha qualquer matrona achava que o mundo inteiro sabia o nome da sua modista; e que as portuguesas eram, afinal, tão bonitas como as espanholas, o problema era andarem sempre de cabeça baixa...

Maria do Rosário Pedreira

Foi Centeno quem fez descer os juros?

PremiumHá dias a agência de notação Standard & Poor's (S&P) subiu o rating de Portugal, levando os juros sobre a dívida pública para os níveis mais baixos de sempre. No mesmo dia, o ministro das Finanças realçava o impacto que as melhorias do rating da República têm vindo a ter nas contas públicas nacionais. A reacção rápida de Centeno teve o propósito óbvio de associar a subida do rating e a descida dos juros às opções de finanças públicas do seu governo. Será justo fazê-lo?

Ricardo Paes Mamede

Os troncos de Doha

Como tudo no Qatar, atravessa-se algum deserto para lá chegar. E o Centro Nacional de Convenções de Doha, nos arredores da capital do emirado, não escapa a esse destino de saltar do fundo da areia e ficar a pairar como uma verdadeira miragem arquitetónica sobre a paisagem. Quando se o vê pela primeira vez fica-se como aqueles saloios que se deslumbram com maravilhas nunca vistas no seu território, é que ao aproximar-se da enorme estrutura descobre-se que está apoiada em dois grandes troncos.

João Céu e Silva

Praguejar é um alívio

"Puta que pariu..." De todas as asneiras do vernáculo português, esta é a minha preferida. Não é a que gritamos quando nos salta a tampa, não é para este sítio que mandamos alguém que se atravesse à má fila num cruzamento quando o sinal está verde para nós. Esta é a que deixamos escapar de mansinho, entre dentes, acompanhada de um abanar de cabeça quando estamos desapontados com o mundo, quando olhamos para a cagada que acabámos de fazer por entornar a água toda do esparguete em cima da bancada, quando reparamos que há 35 pessoas à nossa frente na fila das Finanças ou quando percebemos que, apesar de serem oito e meia da manhã, já não há mais senhas para renovar o Cartão de Cidadão.

Paulo Farinha

Pensas que estás na barraca onde vives?

No outro dia, uma professora perguntou isto à minha filha, que tem 12 anos e está no 6º ano. "Pensas que estás na barraca onde vives?" Ela contou-me, ao jantar, olhar crítico, mas descontração saudável, que tanto me descansa. "Achas bem, mãe?" Primeira (e estúpida) reação minha: "O que é que fizeste para a professora perguntar isso?" Ela, com aquele ar incrédulo dos pré-adolescentes: "Só estava torta na cadeira, mãe. Achas bem uma professora perguntar isso?"

Catarina Pires

O Brexit não é só como eles quiserem

Ao longo das últimas semanas, o Brexit tem ocupado os jornais e televisões com a intensidade, o drama e a paixão de um reality show. As perdas de voz de May, a hesitações de Corbyn, os trânsfugas, tudo é visto e comentado. Até as gravatas do Speaker of the House conhecemos (ainda não repetiu nenhuma). É a democracia, dizem-nos. Será. Mas como em todos os divórcios há (pelo menos) duas partes. E se é certo que não podemos, não queremos, nem temos interesse em pôr-lhes as malas à porta, também é verdade que não podem continuar a precisar de tempo para pensar todas semanas.

Henrique Burnay