Lisboa não vai com qualquer um

Eu nasci em Lisboa, na Rua Diogo do Couto, ali nas traseiras de Santa Apolónia, onde chegavam os comboios com víveres da província e gente do estrangeiro. Cresci em Lisboa, no bairro do Olivais. Vivi na Mouraria, na Graça, no Chiado e em Santa Catarina. Estudei em Lisboa, na Ameixoeira, em Chelas, na Cidade Universitária, no Campo Grande, em Entrecampos e em São Sebastião. Trabalhei em Lisboa, em Alvalade, no Bairro Azul, nas Laranjeiras, na Av. da Liberdade, no Rato, no Parque das Nações, nas Amoreiras.

Fui muitas vezes às compras pela mão da minha mãe à Baixa de Lisboa. Andei de eléctrico com os meus avós por Lisboa. Percorri de bicicleta muitos bairros de Lisboa. Morreram-me os avós em Lisboa. Morreu-me o pai em Lisboa.

Conheci uma Lisboa triste, que parecia uma cidade de leste e não a capital deste soalheiro oeste. Vi Lisboa arder e vi Lisboa renascer aos poucos.

Fiz muita coisa pela primeira vez em Lisboa, coisas que se fazem e outras que não se fazem. Fumei, embebedei-me, andei ao estalo, parti carros. Apaixonei-me e voltei a apaixonar-me em Lisboa. Fiz remo e andei à vela no Tejo, de onde se vê uma Lisboa baixinha que trepa colinas. Caminhei horas por Lisboa, do Bairro Alto aos Olivais, de madrugada, porque não havia mais autocarros e o dinheiro do táxi tinha sido investido em canecas entretanto mijadas. Abri quase todos os novos bares (hoje velhos) de Lisboa. Fiz os meus melhores amigos em Lisboa.

Vi os filmes todos do mundo em Lisboa, no Palácio Foz, na Gulbenkian, na Cinemateca, nos cinemas grandes e nos de centro comercial. Fui pianista num teatro de Lisboa. Bebi em quase todos os bares dos velhos hotéis de Lisboa, jantei e almocei em quase todas as tascas do Bairro Alto e muitas outras na Mouraria, no Castelo e Alfama. Aprendi a dizer, com fluência e à vontade, todos os palavrões do português nas ruas de Lisboa. Aprendi francês e inglês em Lisboa. Mostrei Lisboa a amigos estrangeiros e obriguei-os a comer açorda no Pap'Açorda. "Mas este prato parece vomitado", diziam eles, "Come e cala-te".

Escorreguei vezes sem conta na linda e malvada calçada lisboeta. Vivi exilado no Ritz, no Tivoli, no Plaza e no Dom Pedro. Se isto fosse um fado (que até parece) diria que tudo fiz em Lisboa, de noite e de dia, por todos os becos e vielas.

Também ajudei a fazer duas campanhas por Lisboa: Lisboa é Gente e O Zé Faz Falta. Em qualquer dos casos, afirmações que eram propaganda e verdade, o que raramente acontece em simultâneo. Serve este enunciado autobiográfico para que fiquem estabelecidas as minhas credenciais de lisboeta antes de dizer o que me está atravessado na garganta.

Nas últimas eleições autárquicas, como a esmagadora maioria dos lisboetas, quis que o Costa ganhasse. Foi um bom presidente da Câmara de Lisboa. Dizem-me que soube negociar, ouvir, arranjar consensos e pôr gente independente e de qualidade a trabalhar; gente tão casmurra e competente como o Manuel Salgado e o José Sá Fernandes. E nos últimos dez anos Lisboa melhorou, pelo menos a meus olhos. Apesar da crise sem fim (um fado português), apesar das obras de sempre (um fado das cidades), apesar das invasões francesas e chinesas, apesar de centenas de problemas reais e imaginários que toda a cidade produz - às vezes parece que é a própria cidade a criar os problemas apenas para que os cidadãos tenham com que se entreter -, Lisboa está melhor no espaço público, tem a frente ribeirinha com dignidade, tem vida por todo o lado. Está melhor, ponto. Claro que podemos sempre mandar parar um taxista para ter outro ponto de vista, mas ainda há pouco o Observador lembrava as Manobras de Maio de há trinta anos, e o que era então Lisboa: pouco mais do que um decrépito cenário para filmes pós-apocalípticos. Em frente.

O Costa, além das qualidades de gestão que mostrou, tinha também qualidades simbólicas: era lisboeta, com amigos lisboetas feitos na rua e no liceu; tinha voz grossa, coisa que se quer em qualquer presidente da Câmara de Lisboa, homem ou mulher; tinha sentido de humor; era um bom garfo, ou não seria tão redondo; e era um português com origens em Goa, o que, simbolicamente, muito honra o passado e o presente multicultural e étnico de Lisboa. Muitos defeitos tinha e tem. Ser do PS, aquela agremiação que é uma das metades da União Nacional que nos governa e chupa há quarenta anos, é um dos grandes. Ainda sim, parece-me que trabalhou mais como lisboeta do que como socialista. Ou não teria sido reeleito com uma maioria absoluta de votos, incluindo muitos da direita.

E depois foi-se embora e deixou um sucessor. Como se a presidência da Câmara de Lisboa fosse um trono para ser herdado sem dar cavaco aos lisboetas.

Mas assim foi. E ao Costa sucedeu um herdeiro desconhecido que aparenta ser filho de sucessivos cruzamentos e consanguinidades socialistas. Uma figura branca, pálida, de voz fininha e cuja preocupação maior, talvez para compensar, pareça ser a de aparecer na fotografia e ter uma palavrinha televisiva sobre tudo o que é actualidades. Um daqueles novos tipos políticos, com media training, daqueles que, quando falam, olham alternadamente - de vírgula em vírgula, de conjunção em conjunção - para a câmara da direita e para a câmara da esquerda. Um não lisboeta. Um político crescido em corredores e não nos becos e vielas de Lisboa.

Quando o príncipe herdeiro da Câmara Municipal de Lisboa chegou ao trono, nenhum lisboeta lhe conhecia, sequer, a voz. Não tardou a aparecer comentador na TVI. E passámos a conhecê-la, a voz: é pequenina, sem corpo, sem interesse. Ultimamente, com o grande patrocínio do exemplar jornalismo dos dias, o principezinho anda a ser promovido como homem e apresentado como "dono da obra". Aqui há atrasado, na capa da Revista do Expresso, lá estava ele numa catacumba lisboeta, de capacete como os homens e de telemóvel como os políticos, num multitasking competente e artisticamente encenado para parecer o homem que faz (parabéns aos assessores). Atrás, em algumas fotografias e em alguns vídeos, apareciam o Manuel Salgado, o José Sá Fernandes e todo um suporting cast, a corte do dono da obra. É marketing e cheira a marketing. Cheira a sabonete, não cheira a Lisboa.

Há dias partilhava estas ideias com um amigo da esquerda esquerda e ele, alarmado, disse-me: "Mas queres entregar a CML à direita?" Na verdade não quero nem posso absolutamente nada. Mas gostava que CML estivesse nas mãos de alguém curricularmente lisboeta. Alguém que merecesse a cidade.

É nas autárquicas que estamos mais próximos da democracia. Os PM, os ministros e até os deputados não ouvem ninguém. Não têm o hábito nem a oportunidade. Estão longe da malta, passam muito tempo nos corredores onde apenas escutam as vozes uns dos outros e as previsíveis perguntas dos jornalistas. Mas os autarcas ouvem porque a malta os encontra na rua. Quando alguns técnicos quiseram cortar árvores em Santa Catarina, árvores que de Inverno deixam ver o rio e entrar o sol que aquece as casas e no Verão fazem sombra deixando-as frescas, árvores centenárias que estavam velhas e em risco de cair, os moradores souberam onde encontrar o Costa e o Sá Fernandes e reclamar. E o Costa escreveu um texto aos serviços sobre a importância das árvores na vida das pessoas, pedindo que se reavaliasse a medida antes de as mandar cortar. Assim foi. As árvores não foram cortadas a eito, mas apenas as que estavam em perigo imediato.

Os autarcas têm que ser da cidade. Não da televisão. O Medina é dos corredores que levam à televisão que leva de volta aos corredores. Não é da cidade.

Tenho a certeza absoluta, conhecendo o lisboeta, que se a direita, numa tarefa quase impossível, desencantasse um ou uma lisboeta decente - sem telhados de vidro nem pés de barro, nem com reputação de caloteiro com rendas por pagar - o Medina, o principezinho herdeiro, não teria a mínima hipótese. É que Lisboa não vai com qualquer um.

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