"Volta Salazar. PSD e CDS mer..."

Passei por esta inscrição - a prova de que grafitar não é um exclusivo da esquerda - umas quantas vezes no fim de semana passado. Decora um edifício industrial abandonado na estrada que liga Nabais a Gouveia, no limite norte do Parque Natural da Serra da Estrela. "Volta Salazar" do lado esquerdo do portão e o resto do lado direito.

A pichagem está ali, com traços grossos a tinta preta, desde 2014, pelo menos. É de outubro desse ano a última passagem do carro do Google por aquela estrada. O escrito, que pode muito bem ter sido apenas um desabafo de desilusão em tempos de aperto e de troika, levanta uma questão interessante. Há um problema de representatividade na direita portuguesa? É bem provável que sim e, se não existiu até agora, é quase certo que o tema passe a ser um problema daqui por uma semana.

Por esta altura no próximo domingo, já há de estar mais claro ao que vem Rui Rio. A confirmar-se um reposicionamento ideológico e programático do PSD - um partido que, em bom rigor, nunca foi demasiado rígido na definição desse posicionamento - mais ao centro, haverá um conjunto de personalidades e, certamente, uma fatia do eleitorado a ter de lidar com a síndrome de viuvez.

Nunca assumindo verdadeiramente essa viragem, Pedro Passos Coelho deixa nas mãos de Rui Rio um partido colocado bastante mais à direita do que alguma vez esteve. Aliás, não deixa de ser espantoso como, passados mais de 40 anos sobre o 25 de Abril, ainda é difícil para um partido de poder em Portugal assumir-se como uma alternativa de direita. A eficácia eleitoral não chega para explicar o fenómeno.

Não falo apenas de opções executivas enquanto governo, mas sobretudo do tom e dos temas com que o PSD foi ocupando o espaço público nos últimos anos. Um bom teste será ver a forma como o líder que agora sai foi adotado por alguma opinião publicada e como o PSD dos últimos quase oito anos foi servindo de referência e de porto de abrigo a algumas figuras de direita inorgânica e ultraconservadora que, até então, não tinham sítio decente onde se encaixar. Ou, numa outra face, é ver como parte do discurso antissistema que já existia nas redes sociais antes de 2010 passou a usar o PSD e Passos Coelho com farol ideológico. E, por favor, não se classifique este período do PSD que agora se encerra como uma experiência neoliberal. Não foi disso que se tratou.

A questão é: o que fazer do passismo agora que Passos sai de cena? Será o novo partido - Iniciativa Liberal - a resposta? Não me parece. Um partido que se posiciona entre o PSD e o PS não deverá ser opção. Quem conviveu bem com frases como, por exemplo, "já alguém se lembrou de perguntar aos 900 mil desempregados de que lhes valeu a Constituição até hoje?" não quer moderação ou movimentos a tender para o centro político.

O DN contava ontem que Rui Rio vai "mudar tudo" no partido até ao final do congresso do próximo fim de semana. Vai ser curioso ver que peso terá o passismo na composição do Conselho Nacional e, já agora, que pontes quer Rio construir com o passado recente do partido. Um cargo honorífico para Pedro Santana Lopes pouco ou nada significará e não vai resolver o problema. O antigo líder e ex-provedor da Santa Casa cumpriu uma missão ao candidatar-se à liderança em nome do passismo, mas não é verdadeiramente "um deles".

O mais certo é o novo líder ter de lidar com uma resistência interna mais ou menos organizada - algo que é quase tradição nos grandes partidos em tempos de oposição - e, por fora, pode contar com a tal opinião publicada que adotou Passos a fazer contravapor ao seu eventual plano para redesenhar ideologicamente o partido. O tempo, as sondagens e os resultados nas europeias e nas legislativas serão os testes óbvios. Se Rio não descolar nas sondagens nos próximos meses e se, mais adiante, não conseguir ser eleitoralmente competitivo, podemos esquecer a criação de um partido alternativo de direita. O passismo lá estará à espera de nova oportunidade para reocupar o PSD.

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