Fogo e fúria

O livro esgotou em minutos e é um retrato perturbador da eleição e do primeiro ano de Donald J. Trump na Casa Branca. Michael Wolff, autor e colunista da Hollywood Reporter, uma revista dedicada à indústria do cinema, teve acesso privilegiado à Casa Branca, fez mais de 200 entrevistas com elementos da equipa e com o próprio presidente ao longo de ano e meio.

A forma como tudo começou é reveladora. A seguir à eleição e depois de ter feito uma entrevista com Trump em plena campanha, em junho de 2016 - entrevista que o então candidato parece ter aprovado -, Michael falou com o presidente e disse-lhe que pretendia ter acesso livre à Casa Branca, apenas para observar e escrever. Tudo seria depois compilado num livro. A conversa foi breve, chegou a ser entendida como um pedido de emprego, o que o autor recusou, e acabou com Trump a elogiar um outro escritor, autor de livros muito críticos de Hillary Clinton. Ao que o próprio Michael Wolff conta, como o presidente não rejeitou logo ali a ideia e como, por aqueles dias, ninguém parecia saber muito bem como interpretar as vontades de Donald Trump, essa não rejeição acabou por ser encarada como aprovação. Wolff conquistara acesso livre a muito do que se passaria na Casa Branca nos meses seguintes.

A rotina foi a mesma durante boa parte deste primeiro ano de mandato. Hospedado num hotel em Washington, atravessava a rua, entrava na Casa Branca e sentava-se num sofá da ala oeste - a ala executiva, onde está a Sala Oval. Pelo corredor onde costumava sentar-se, passavam todos os nomes da nova administração. Steve Bannon, Kellyanne Conway, Reince Priebus, Jared Kushner, Mike Pence, Michael Flynn Tinha acesso a todos eles.

Lendo os pedaços entretanto publicados, o relato deste primeiro ano anda algures entre uma comédia e um filme de catástrofe. Um ambiente surreal numa casa de caos, disfuncional, sem liderança, em permanentes guerras fratricidas entre diferentes fações e com um presidente descrito, pela maioria dos entrevistados, como uma criança. Uma teimosa, egocêntrica e instável criança.

O relato mais interessante é, apesar de tudo, o da noite eleitoral. É o momento em que o autor junta as peças e conclui que Trump nunca pensou que seria, nem queria verdadeiramente ser, presidente dos Estados Unidos. Quando a tendência se inverteu e as televisões passaram a dar como certa a vitória do candidato republicano, Trump parecia que tinha visto um fantasma e Melania estava em lágrimas - não de alegria. A descrição é de um dos filhos do presidente e demonstra que o plano era mesmo deixar o país entregue a Hillary Clinton, beneficiando do estatuto de candidato derrotado para reforçar a marca Trump e fundar um canal de televisão. É a confirmação de que Donald Trump nunca se preocupou verdadeiramente com as bases que o elegeram. Um presidente por acidente na maior potência militar e na maior democracia do globo é muito mais do que uma piada de mau gosto. É uma ameaça real.

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