O dilema da direita açoriana

No nosso sistema político, como na generalidade das democracias regidas pelo princípio da proporcionalidade, ficar em primeiro não é sinónimo de vitória, apenas dá ao partido que ganha as eleições a prerrogativa de ser o primeiro a ser convidado a formar governo. Consequentemente, quem efetivamente as ganha e define a governabilidade que delas resulta é o bloco que tiver a confiança maioritária, ou pelo menos não tiver a desconfiança maioritária, no Parlamento.

A dicotomia esquerda-direita não resolve o problema da governabilidade açoriana. Dados os resultados eleitorais, nem a soma de deputados do PS e do BE seria maioritária, nem a soma do PSD com o CDS e o Chega. Pelo que o futuro do poder político na região dependerá dos partidos-pivot, aqueles que tanto se podem coligar com um como com outro dos grandes partidos (PPM, IL e PAN).

Coloca-se ainda uma questão prévia à direita, a da exclusão de qualquer relação com a extrema-direita, a exemplo do que fez Angela Merkel na Alemanha. Mas essa opção implicaria para o PSD açoriano a renúncia a formar um bloco com peso suficiente para tentar governar e não há nenhum sinal de que siga por esse caminho. O PSD está, aliás, num dilema entre a firmeza contra o reacionarismo do Chega e a sede de governar de novo. Para se afirmar, o PSD quer, pelo menos com Rui Rio, ser moderado e liberal. Para voltar ao poder, pode, mesmo com Rui Rio, aceitar faustianamente abrir a porta à extrema-direita e ao reacionarismo.

A aceitação do Chega no seio de um bloco de direita foi posta em marcha logo na noite eleitoral. Mas a sua possibilidade de sucesso é remota, não por causa do PSD ou do CDS, mas porque ainda assim seria preciso que todos os partidos-pivot aceitassem essa aliança e é improvável que o PAN ou mesmo a Iniciativa Liberal troquem as suas posições cosmopolitas em várias matérias e liberais nos costumes pelo poder regional. Ou seja, serão o PAN, a IL ou ambos a resolver o dilema da direita açoriana.

O poder de iniciativa para travar as tentações de PSD e CDS está, contudo, essencialmente no PS. É este partido que tem de saber cativar o partido à sua esquerda e pelo menos dois dos três partidos-pivot do centro. Fazê-lo exigirá ao PS açoriano uma adaptação a um modelo da geringonça que nunca foi praticado na região, se intui que os socialistas açorianos nunca viram como importável do continente e, ainda por cima, numa versão mais completa e complexa. Assim como implicará da parte de BE, PAN, PPM e IL a adoção de cadernos reivindicativos realistas, como aconteceu a nível nacional em 2015. Será a capacidade de dialogar da esquerda e do centro a decidir a próxima configuração do poder nos Açores.

O entendimento de bom-senso ao centro e à esquerda tem como alternativas a oferta ao país de uma antecipação do regresso do reacionarismo à esfera do poder, ou a oferta aos Açores de uma situação ingovernável que desemboque em repetição de eleições de desfecho ainda mais imprevisível.

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