Um ano depois, tudo mudou para ficar tudo na mesma

Nos últimos dias fez um ano que mudou muita coisa, quase tudo. O Presidente é outro, o governo é outro, a oposição também. Marcelo Rebelo de Sousa foi empossado Presidente da República, a geringonça aprovou o primeiro Orçamento do Estado da esquerda, Passos Coelho foi confirmado líder do PSD, agora na oposição, e Assunção Cristas foi eleita líder do CDS. Mais de um ano depois, está tudo tão diferente e assustadoramente tão igual. Para as claques há vida nova, para o país e para as pessoas que o habitam está tudo igualmente parecido. Mais Xanax, menos Xanax, ninguém poderá dizer que isto mudou. Nem para pior, nem para melhor.

Os funcionários públicos recuperaram rendimento, mas a classe média continua à espera do fim da sobretaxa. O emprego aumentou ao mesmo tempo que aumentou a precariedade e diminuiu o salário médio. O investimento, público e privado, continua mais ou menos parado. Os juros da dívida aumentaram e levam-nos mais ou menos 5% de tudo o que produzimos anualmente no país. Amortizar dívida continua a ser uma miragem. Mas sim, dá a sensação que o país é outro, que dependemos apenas da nossa própria boa vontade, sem cuidarmos de perceber que geringonça não é apenas a coligação parlamentar, é todo o país e a economia que o sustenta.

Se eu fosse de direita seria capaz de desejar um milagre da esquerda e se fosse de esquerda estaria decidido a entregar o poder à direita para ela endireitar o país. Como verdadeiramente ninguém está a pensar no país a médio prazo, não há racionalidade nem altruísmo. Há a tática de jogo que consiste em ganhar um dia de cada vez para segurar o poder o máximo de tempo possível. Há o lado esquerdo, o lado direito e um sistema financeiro que, num mundo globalizado, rapidamente aprendeu a servir-se de tudo e de todos. Há a América que se radicaliza, uma Europa que implode e um povo a ver passar navios.

Podemos acreditar que a alternativa deu bons resultados, mas a única certeza que podemos ter é que, como se pensava, não há um caminho único. Isto funciona com austeridade de direita e austeridade de esquerda, mas nenhuma resolve os problemas estruturais do país. Continuamos sem fazer as reformas estruturais, sem adaptar a legislação à globalização que nos entrou porta dentro, sem adaptar as relações de trabalho à competitividade que aumentou com essa globalização, sem acrescentar rigor à liberdade de circulação de capitais. E, com esta consciência da realidade, ganhamos o conforto de sabermos que pouco ou nada depende de nós.

Ainda assim, olhando para os principais protagonistas da vida política portuguesa, é tempo de lhes fazer uma avaliação pelo ano que passou nas suas novas existências. Pela ordem hierárquica:

1. Marcelo Rebelo de Sousa: Igual a si próprio, o Presidente da República cultiva afetos, recebe apoios e leva ao colo o governo sem conseguir deixar de nos fazer pensar que, mais dia menos dia, vai cobrar a António Costa todo o apoio que lhe dá.

2. António Costa: O mais hábil político a gerir o poder desde o 25 de Abril, nas palavras de Santana Lopes, tem do seu lado o Bloco e o PCP mas estes apoios podem a qualquer momento queimar-lhe as mãos. O primeiro-ministro e líder do PS continua a surpreender pela capacidade de estar bem com um Parlamento de esquerda e um Presidente de direita.

3. Pedro Passos Coelho: Na pele de um ex-primeiro-ministro, o líder do PSD teima em não acertar com o que deve ser um líder da oposição. Em seu benefício deve ser tida em conta a sua larga experiência política que lhe tem permitido manter o partido mais ou menos unido em torno da sua liderança.

4. Carlos Costa: O governador do Banco de Portugal não é um agente político, mas tem estado no centro do debate. Defendido pelas instituições internacionais, aguenta-se firme num combate que noutras circunstâncias já o tinha feito cair. Resiliente, Carlos Costa ainda vai ter uma palavra importante a dizer em dossiês que podem queimar o governo.

5. Catarina Martins: Depois de ter feito um fraco percurso na liderança bicéfala do Bloco, mostrou-se forte como líder sozinha. É hoje evidente que, atuando a partir de fora, tem uma grande influência no governo.

6. Jerónimo de Sousa: A abertura do líder do PCP permitiu a formação de uma inédita coligação de esquerda. Jerónimo, na linha da história do seu partido, é um homem sem pressa. Os comunistas estão atentos ao excessivo protagonismo do Bloco, mas sabem que o tempo joga a seu favor.

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