Geringonça à direita e à esquerda

A surpresa com que algumas das notícias da noite eleitoral foram recebidas pelos jornalistas e comentadores só é possível porque, eleição atrás de eleição, jornalistas e comentadores partem do princípio de que nenhuma surpresa pode ser prevista. Têm razão, é um raciocínio que qualquer criança é capaz de fazer: se alguém antecipa a surpresa, esta deixa de o ser.

Todos sabíamos que Rui Moreira ia ganhar o Porto, só faltava saber se tinha maioria absoluta. Nisso, as sondagens que lhe auguravam um empate ajudaram-no a ir buscar votos ao moribundo PSD.

Todos sabíamos que Fernando Medina ganharia Lisboa, só faltava saber se tinha maioria absoluta. Nisso, só a tardia confirmação de que não a tinha conseguido lhe permitiu aparecer como um vencedor.

Todos sabíamos que Teresa Leal Coelho se preparava para ficar atrás de Assunção Cristas. Nisso, só a dimensão da hecatombe podia ser notícia.

Todos sabíamos que o PSD de Passos Coelho não tinha capacidade para corrigir o péssimo resultado de há quatro anos. Nisso, fazer pior permite ao PSD clarificar mais rapidamente a questão da liderança.

Todos sabíamos que a transferência de câmaras do PCP para o PS ia acontecer. Nisso, só o número de autarquias e a sua localização faz do resultado comunista um problema para a geringonça.

Todos sabíamos que António Costa iria desvalorizar a derrota comunista. Nisto só faltou vê-lo de punho cerrado, dando vivas ao PCP.

Todos sabíamos que as autárquicas não eram um combate crucial para o Bloco de Esquerda. Nisso, Catarina Martins conseguiu passar pelos pingos da chuva.

Surpresa, surpresa foi a forma azeda, a lembrar Cavaco Silva na reeleição presidencial, como Rui Moreira festejou a grande vitória na cidade invicta. Surpresa também foi ver Pedro Passos Coelho abrir a porta de saída, depois de ter garantido que, fosse qual fosse o resultado, não se ia "pôr ao fresco".

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