Geringonça à direita e à esquerda

A surpresa com que algumas das notícias da noite eleitoral foram recebidas pelos jornalistas e comentadores só é possível porque, eleição atrás de eleição, jornalistas e comentadores partem do princípio de que nenhuma surpresa pode ser prevista. Têm razão, é um raciocínio que qualquer criança é capaz de fazer: se alguém antecipa a surpresa, esta deixa de o ser.

Todos sabíamos que Rui Moreira ia ganhar o Porto, só faltava saber se tinha maioria absoluta. Nisso, as sondagens que lhe auguravam um empate ajudaram-no a ir buscar votos ao moribundo PSD.

Todos sabíamos que Fernando Medina ganharia Lisboa, só faltava saber se tinha maioria absoluta. Nisso, só a tardia confirmação de que não a tinha conseguido lhe permitiu aparecer como um vencedor.

Todos sabíamos que Teresa Leal Coelho se preparava para ficar atrás de Assunção Cristas. Nisso, só a dimensão da hecatombe podia ser notícia.

Todos sabíamos que o PSD de Passos Coelho não tinha capacidade para corrigir o péssimo resultado de há quatro anos. Nisso, fazer pior permite ao PSD clarificar mais rapidamente a questão da liderança.

Todos sabíamos que a transferência de câmaras do PCP para o PS ia acontecer. Nisso, só o número de autarquias e a sua localização faz do resultado comunista um problema para a geringonça.

Todos sabíamos que António Costa iria desvalorizar a derrota comunista. Nisto só faltou vê-lo de punho cerrado, dando vivas ao PCP.

Todos sabíamos que as autárquicas não eram um combate crucial para o Bloco de Esquerda. Nisso, Catarina Martins conseguiu passar pelos pingos da chuva.

Surpresa, surpresa foi a forma azeda, a lembrar Cavaco Silva na reeleição presidencial, como Rui Moreira festejou a grande vitória na cidade invicta. Surpresa também foi ver Pedro Passos Coelho abrir a porta de saída, depois de ter garantido que, fosse qual fosse o resultado, não se ia "pôr ao fresco".

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Nos rankings das escolas há um número que chama especialmente a atenção: as raparigas são melhores do que os rapazes em 13 das 16 disciplinas avaliadas. Ou seja, não há nenhum problema com as raparigas. O que é um alívio - porque a avaliar pelo percurso de vida das mulheres portuguesas, poder-se-ia pensar que sim, elas têm um problema. Apenas 7% atingem lugares de topo, executivos. Apenas 12% estão em conselhos de administração de empresas cotadas em bolsa - o número cresce para uns míseros 14% em empresas do PSI20. Apenas 7,5% das presidências de câmara são mulheres.

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Quando não podemos usar o argumento das trincheiras

A discussão pública das questões fraturantes (uso a expressão por comodidade; noutra oportunidade explicarei porque me parece equívoca) tende não só a ser apresentada como uma questão de progresso, como se de um lado estivesse o futuro e do outro o passado, mas também como uma questão de civilização, de ética, como se de um lado estivesse a razão e do outro a degenerescência, de tal forma que elas são analisadas quase em pacote, como se fosse inevitável ser a favor ou contra todas de uma vez. Nesse sentido, na discussão pública, elas aparecem como questões de fácil tomada de posição, por mais complexo que seja o assunto: em questões éticas, civilizacionais, quem pode ter dúvidas? Os termos dessa discussão vão ao ponto de se fazer juízos de valor sobre quem está do outro lado, ou sobre as pessoas com quem nos damos: como pode alguém dar-se com pessoas que não defendem aquilo, ou que estão contra isto? Isto vale para os dois lados e eu sou testemunha delas em várias ocasiões.